RETRÔ: MARIO e minha alfabetização

Entre as primeiras coisas que aprendi a ler, o vocativo “Super Mario” pode ser listado como quinto ou sexto lugar. Era um emulador de Game Boy Color, uma rom obtida pelo meu irmão de Super Mario Bros. Deluxe e uma curiosidade imensa sobre aquela misteriosa forma de entretenimento que fariam, talvez, eu me tornar essa pessoa tão apaixonada por jogos.

O ano era 2002 e diferente das crianças de hoje em dia, meu computador eram as sobras de um computador velho de meu irmão 8 anos mais velho, sem acesso a internet. Campo minado, paciência e o Paint eram as principais formas de entretenimento neles presentes. Sem um videogame próprio ainda na época, era o melhor que eu tinha enquanto observava por incansáveis horas meu irmão jogar no PlayStation original. Embora, admitamos, não fosse meu primeiro contato com jogos de forma alguma: alguns anos antes, comigo lá pelos 3 anos de idade, meu irmão ganhou um Sega Saturn e deixava eu jogar somente um jogo dos vários que ele possuia: Virtua Fighter. Eu escolhia Jack e ia lutando. Vencia a partida espelhada com o Jack de cara mas perdia para a segunda luta, contra Jeffrey. Para mim estava ótimo aquilo.

O computador me deu a liberdade de jogar (ou brincar, no caso do Paint) em qualquer momento, ao meu próprio tempo. Fui fuçando também e aprendendo a mexer em Wallpapers, criar novas pastas e novos arquivos de textos — mas tudo olhando a identidade dos ícones, não lendo.

Pois bem, o Brasil ganhou o penta e o filme do Homem-Aranha estreou — e eu, no ápice de meus seis anos, só conseguia pensar no cabeça-de-teia. Meu irmão então, com acesso a internet (discada, lembro bem do barulho), me fez um agrado: por meio de disquetes — sim, disquetes — ele transferiu de seu computador para o meu um papel de parede do teioso e mais um programa novo e alguns arquivos.

O ícone do programa lembrava um Game Boy.

“O que é isso?”, perguntei.

“Um presente”, meu irmão respondeu.

Me ensinou a executar o programa do Game Boy, ele havia me explicado que era um emulador, e ir até “arquivo -> abrir” para escolher um dos outros arquivos que ele tinha passado. Não me lembro de quantos eram ou quais estavam presentes, mas lembro que executei um por um até achar algum que me chamasse a atenção.

Foi ai que aconteceu.

Uma tela colorida, um homem de macacão e chapéu. Andava pra frente e um bolinho vinha avançando em minha direção. Continuei andando até tocar nele e, pasmem, morri.

“Esse é o Mario. Você precisa pular no inimigo pra avançar.” disse meu irmão.

Tentei uma segunda vez, consegui passar do inimigo. Senti algo que até hoje não sei explicar. Talvez fosse conforto, talvez diversão. Naquele momento, com o mais simples dos designs de fases, a Nintendo tinha me conquistado.

Fiquei jogando durante meses aquele jogo. Casando com minha alfabetização, depois que aprendi as letras S, U, P, E e R conseguia ler o nome do jogo. Super Mario. Não importava, para ser honesto, já chamava de Mario mesmo. O Super era só um adendo.

Um dia cheguei até um castelo diferente depois de uma longa tarde jogando. Cheguei no dragão que sempre me esperava ao fim de cada fase. O derrotei e dessa vez nenhum inimigo subiu da lava. Andei para frente e encontrei uma mulher. Ela falou alguma coisa que eu li mas não consegui entender. Se abaixou e deu um beijo no Mario. Vários nomes apareceram sobre uma tela escura e, após terminada a sequência, estava de volta na tela de título

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Era véspera de Natal. Meus primos tinham acabado de chegar. Eu esperava o Papai Noel ansioso. E, sem delongas, desliguei meu computador e fui até a sala. Não tocaria mais naquele Mario por um bom tempo por talvez ter entendido: havia terminado o jogo.

No dia seguinte, fui com meu pai comprar um jornal e encontrei uma revista com o Mario na capa. Meu pai comprou para mim e com o esforço de um recém alfabetizado, fiquei sabendo que o Mario ia muito além daquele jogo. E agora, 16 anos depois, eu consigo saber o que me fisgou naquele jogo.

A verdade é que existem muitos artigos por ai que com certeza irão enaltecer e desenvolver de forma bem melhor do que eu sou capaz o level design de Super Mario Bros., mas aqui fica mais uma homenagem a um jogo que, anos depois, entenderia por uma simplicidade incrível e um mundo cheio de cores e identidades visuais únicas, teria feito eu me apaixonar pela mídia videogames assim como outros se apaixonam por filmes, quadrinhos e afins.

Revisão: Angelo Mota

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