REVIEW | CRASH TEAM RACING NITRO-FUELED acelera a nostalgia em suaves curvas de modernidade

Crash Bandicoot se sagrou, por muitos anos, como mascote não-oficial da PlayStation. Nesse período, durante o final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, sua série de jogos de plataforma e afins eram responsabilidade de desenvolvimento do (até então não tão) aclamado estúdio Naughty Dog– mesmo que os direitos da propriedade intelectual pertencessem à Vivendi, empresa que foi posteriormente adquirida pela Activision Blizzard. Business are business!

Um dos jogos que ajudou a popularizar o marsupial mais satírico dos videogames foi Crash Team Racing, jogo de corrida com trapaças (ou corrida de karts, se preferir) que chegou exclusivamente para o PlayStation original em resposta ao sucesso de vendas de Mario Kart 64. Com sua proposta mais voltada para campanha single player, CTR tornou-se um clássico instantâneo – e seu retorno, com Crash Team Racing Nitro-Fueled em 2019, um evento muito antecipado pelos fãs de longa data.

A essência de CTR

A primeira coisa que notei no remake foi, na verdade, algo que o material original já havia executado em retrospecto: uma motivação para ser jogado por meio da simples narrativa desenvolvida em sua campanha single player. É impressionante notar que, mesmo se tratando de um jogo arcade (mais casual), a Naughty Dog escolheu deixar uma marca que, ao longo dos anos, se firmaria como uma de suas assinaturas.

Crash Team Racing rapidamente se tornou um clássico da biblioteca de exclusivos da Sony, chegando aos consoles da Nintendo apenas em 2019.
Crash Team Racing rapidamente se tornou um clássico da biblioteca de exclusivos da Sony, chegando aos consoles da Nintendo apenas em 2019.

CTR é um jogo de corrida, então não podemos exigir muito do ponto de vista narrativo,  não é mesmo? A campanha do jogo, porém, continua sendo seu maior diferencial em relação aos outros jogos desse estilo, reunindo uma coleção de biomas, relevos e desafios diferentes.

Pegando carona com a turma do marsupial

A dirigibilidade no novo jogo está bem mais refinada e precisa que no jogo original, fazendo jus às curvas acentuadas presentes aos montes em diversos circuitos. Se você está acostumado com Mario Kart 8 Deluxe ou algum outro título não tão datado da franquia de karts da Nintendo, você certamente vai sentir a leveza e agilidade nos controles em Crash Team Racing Nitro-Fueled.

A derrapagem e a frenagem em Crash Team Racing Nitro-Fueled são usadas em abordagens distintas. Derrapar em curvas acentuadas, mesmo com personagens mais hábeis em esterçar a direção (handling), é risco quase certo de colisão com paredes e obstáculos laterais. Frear pode diminuir sua velocidade bruscamente, portanto é preciso aprender quando e como utilizar esse recurso de modo eficaz.

É também possível perceber em CTR – assim como em sua recém-lançada versão repaginada pelas mãos do estúdio Beenox – certa semelhança com a estrutura de fases e mundos presentes nos títulos de plataforma protagonizados por Crash. Os troféus, adquiridos individualmente após vencermos cada uma das corridas, são análogos aos cristais. Há chefes regulares após certa quantidade de corridas vencidas – mesmo que, na prática, sejam basicamente iguais aos outros.

O jogo também apresenta uma pontinha do aspecto collect-a-thon presente na trilogia clássica: mapas opcionais com colecionáveis, corridas no estilo time trial, desafios desbloqueados após a coleta dos troféus, entre outros. Além disso, ao progredir na campanha, recebemos moedas, partes de automóveis e itens decorativos para dar uma turbinada no visual dos possantes no modo Nitro Fueled.

“Crash de carrinhos” para todos

Do menu principal, é fácil acessar modos arcade focados no competitivo local, quase todos adaptados dos tipos de corridas e desafios propostos dentro da campanha. Além das corridas tradicionais, coleta de itens e desafios contra o relógio, temos o modo batalha (battle), onde aprendemos o verdadeiro significado de “usar itens e armas exaustivamente”.

O modo online oferece a opção de criar sua própria sala, entrar numa partida aleatória ou juntar-se aos seus amigos que também gostam de corridas malucas envolvendo seres antropozoomórficos (lê-se com aparência simultânea de animal e pessoa). As conexões no Nintendo Switch se mantiveram estáveis o suficiente para não atrapalhar durante as competições.

Em questão de acessibilidade, Crash Team Racing Nitro-Fueled parece fazer um trabalho satisfatório: a função nitro wheels, por exemplo, indica visualmente (pelo escapamento do kart) o timing para executar a derrapagem e garantir um bônus momentâneo de velocidade; um sistema de dicas fácil e direto também pode ser consultado pelo menu in-game.

Os controles podem ser configurados como alternativo e clássico, mas os comandos não podem ser individualmente remapeados. Outra opção que faz falta é o uso dos sensores de movimentos presentes no Nintendo Switch. Eu particularmente não uso esse recurso, mas sei que poderia ser uma adição interessante para alguns jogadores.

As cores e sons dos autódromos

Crash Team Racing Nitro-Fueled tem um visual cartunesco que remete às suas origens, mas certamente o trabalho da equipe de arte nesse título de retorno triunfal é elogiável. As pistas são fiéis no que diz respeito ao level design original, porém contam com uma suavização dos terrenos muito agradável aos olhos – mesmo que o jogo rode na resolução nativa de 720p (dock) e 480p (portátil).

Um fato importante de mencionar é o desempenho na atualização de quadros durante a jogatina: apesar de rodar a 30 fps em todos os consoles – em contrapartida aos invejáveis 60 fps de Mario Kart 8 Deluxe –, o jogo não tem quedas ou oscilações bruscas, mantendo um frame pacing satisfatório. O que não é nem um pouco satisfatório são os tempos de carregamento entre telas na versão de Switch, ocasionalmente ultrapassando vinte segundos.

A sonoplastia e a trilha sonora do remake não sofreram significativas mudanças (não se deve mexer no time que está ganhando a partida, não é mesmo?) justamente pela intenção de resgatar aquele sentimento saudosista dos fãs do clássico. Após Spyro Reignited Trilogy ser lançado sem quaisquer opções de legendas em 2018, a Activision considerou legendar o jogo para torná-lo mais acessível. É bom ver pequenas lições sendo aprendidas por grandes empresas.

Crash Team Racing Nitro-Fueled resgata a experiência estabelecida por um clássico há duas décadas. Sua jogabilidade rápida e precisa, alinhada com uma campanha tradicional, são seus maiores atrativos – mesmo que suas ideias de game design tenham ficado lá no final dos anos 1990. Após ver suas travessuras em dois relançamentos para Switch, chegou a hora de aguardar o marsupial em uma (ainda não anunciada) aventura inédita. Só vem, bichano!

A análise foi feita na versão de Nintendo Switch, gentilmente cedida pela Activision do Brasil.

Revisão: Angelo Mota

Comentários: