REVIEW | WOLFENSTEIN YOUNGBLOOD é um exercício em desperdício de potencial

Wolfenstein Youngblood foi lançado em julho de 2019 para o Nintendo Switch, PS4, Xbox One e PC. Desenvolvido pela MachineGames (responsável pelos jogos mais recentes da franquia) em conjunto com a Arkane Studios (de Dishonored e Prey) e publicado pela Bethesda, trata-se de um spin-off que funciona bem mais como uma sequência direta dos eventos ocorridos no jogo anterior da saga, Wolfenstein 2: The New Colossus, do que como uma mera expansão que reutilize os cenários e a estrutura deste. Tal estrutura, aliás, é tão diferente que aqui temos um jogo mais focado em co-op, com missões não-lineares de mundo aberto e que pende mais para o lado do gênero dos looter shooters do que para o estilo costumeiro de um Wolfenstein.

Youngblood gira em torno de duas novas personagens: as gêmeas Jess e Soph, filhas do herói e personagem principal dos jogos anteriores B.J Blazkowicz. No início dos anos 80 — 19 anos após o fim de The New Colossus —, Blazkowicz desaparece sem deixar muitos rastros, o que faz com que as garotas viajem até Paris para tentar encontrá-lo após descobrirem uma pista de que seu pai teria ido até a capital francesa dominada pelos nazistas a fim de encontrar a Resistência daquele país.

Ter duas personagens principais não serve um propósito apenas narrativo, entretanto. Todo o gameplay de Youngblood se constrói ao redor das duas garotas e introduz uma novidade à franquia: o modo cooperativo. A versão deluxe do game traz um esqueminha chamado “buddy pass”, que permite que o dono do jogo compartilhe a jogatina com algum amigo, desde que o mesmo esteja inscrito na bethesda.net (algo que chegou a gerar alguns memes na internet).

Caso você opte por comprar a versão normal do jogo, ainda é possível jogar com outras pessoas que possuam o game ou simplesmente enfrentar toda a campanha sozinho, tendo uma das meninas controladas pela IA, que surpreendentemente funciona melhor do que o esperado (apesar de algumas pessoas ainda terem problemas com ela). O problema é que Wolfenstein Youngblood não surpreende positivamente em praticamente mais nada além disso.

Comecemos pelo level design. Qualquer um que conheça o talento da Arkane Studios para construção de fases não estaria errado em esperar que cada mapa do jogo fosse recheado de coisas interessantes para se fazer e maneiras diferentes de completar um mesmo objetivo. O que acontece aqui, porém, é o oposto disso. Por mais que Youngblood traga ambientes visualmente bem feitos, o que você faz dentro desses mapas quase nunca traz satisfação. É frustrante o número de vezes em que eu e o amigo que jogou comigo (fiz a campanha toda no cooperativo) nos perguntamos “onde que é pra ir agora?”. Youngblood até começa com uma missão introdutória promissora nesse aspecto, mas nada que veio depois dela chegou perto da qualidade da abertura do game. Essa missão, aliás, é uma das únicas seções realmente lineares dele. Você atira em nazistas, derrota um chefe, escapa num helicóptero e é transportado para o HUB do jogo. É nesse HUB que membros (completamente esquecíveis) da Resistência francesa entregam as várias missões que você vai jogar. Essas, porém, não passam de simples fetch quests. Vá para esse lugar do mapa, pegue o item que eu quero, traga para mim. Repita por 10 horas de campanha.

Você até pode fazer diversas missões na ordem que você quiser… pelo menos em teoria. Youngblood tem um outro problema que é um bocado irritante: desbalanceamento e áreas do jogo que trancam o seu progresso por simplesmente terem inimigos que estão num nível muito maior que o seu ou exigem munição de armas que você ainda não tem. Ah… eu disse nível? Pois é… Wolfenstein Youngblood não só resolveu apelar para a não-linearidade e um open world fajuto como também colocou elementos de RPG!

Na superfície, trazer todos esses elementos não é algo negativo. É interessante ver os estúdios responsáveis pelo jogo experimentando. Serem bem-sucedidos nisso já é outra história. Aqui temos um grande foco em customização das personagens e das armas. No caso das garotas, é possível escolher novas habilidades conforme você upa, como por exemplo a capacidade de carregar duas armas ao mesmo tempo (algo clássico na franquia), usar armas pesadas deixadas por inimigos, ser mais sorrateiro, aumentar a saúde e o escudo e coisas do tipo; já no que diz respeito às armas, é possível mexer em praticamente tudo nelas, quase que como em Fallout 4. A questão é que… você quer realmente ficar preocupado com DPS em um Wolfenstein? Eu acho que não.

Dessa maneira, pode-se dizer que a progressão em Youngblood é meramente numérica, o que significa que você pode esperar umas boas horas do famigerado grinding, o que para alguns talvez nem seja um problema, já que os inimigos retornam à vida em áreas que você já explorou mais rapidamente do que o Serj Tankian canta Chop Suey.

Não me entenda mal: o gunplay continua sendo gostoso como nos Wolfensteins anteriores. A mobilidade das personagens continua divertida, cada arma transmite tanto aquela sensação “certa” nos disparos e recuo quanto antes. Só que para cada momento potencialmente divertido que o jogo propõe, aparecem o triplo de motivos para te desanimar de continuar jogando: dificuldade desbalanceada, problemas de hit box, inimigos que revivem numa frequência irritante e que desencorajam a exploração, problemas com as munições (tanto de você acabar não tendo a munição certa para derrotar o inimigo com um tipo de armadura específico quanto você morrer e voltar com a mesma quantia de balas que tinha ao morrer).

Outra coisa que não posso deixar de mencionar é o quanto acho Jess e Soph personagens fracas. Se por um lado The New Order e The New Colossus fizeram um bom trabalho de desenvolver B.J Blazkowicz, Youngblood traz personagens simplesmente bobas. O texto do jogo não é nenhum exemplo de alta literatura, mas também não precisava soar tão preguiçoso, repetitivo e forçado. As irmãs repetem as mesmas frases inúmeras vezes durante a campanha, têm uma personalidade tosca e reagem de um jeito que parece muito falso considerando o contexto em que elas estão. Duas garotas jovens que resolveram se enfiar numa Paris cheia de nazistas em busca de seu pai, com pouca experiência com armas e guerra, chega a beirar o insano e absurdo — mesmo dentro dos moldes da franquia. Chega uma hora que simplesmente se torna cansativo até mesno vê-las dançando nas cenas de elevador que servem de tela de carregamento.

Em termos de resolução e performance no Switch, Wolfenstein Youngblood funciona com uma resolução dinâmica tanto na tv quanto no modo portátil. Os números podem variar de 720p, podendo cair para 684p (na tv) e 540p (portátil). Já o frame rate mira em 30 quadros por segundo, mas tem quedas constantes nas cenas mais pesadas de tiroteio, então é mais comum ver o jogo performando na média dos 25 frames por segundo e com presença de frame pacing, o que não ajuda a experiência a ser fluida. Além do mais, bugs frequentes aparecem na forma de inimigos que param de reagir, personagens ficando presos em partes da geometria do cenário, defeitos nas sombras, no som e jogadores sendo desconectados com certa frequência.

A Bethesda já lançou alguns patches que prometem corrigir diversos problemas do jogo, e isso inclui corrigir o desbalanceamento (tanto de dano que os inimigos causam quanto poder de fogo das armas dos jogadores), hit box de uma seção da batalha final (que, acredite, é uma das coisas mais desbalanceadas, quebradas e mal feitas que eu já vi num jogo) e coisas do tipo. A questão é que todas essas mudanças dificilmente resolverão problemas que são na realidade inerentes ao próprio design do jogo e não à sua parte técnica.

No fim das contas, Wolfenstein Youngblood é uma decepção. Quando ele foi anunciado originalmente, muitas pessoas se animaram. Afinal, atirar em nazistas nesse mundo absurdo da franquia sempre foi divertido e deveria ser melhor ainda na companhia de um amigo. Mas o produto final é um dos jogos mais maçantes e chatos que eu já joguei na vida. Os poucos momentos em que é possível ver aquele brilho presente nos outros jogos da MachineGames são simplesmente sufocados num mar de decisões ruins de design que desperdiçam o potencial daquele que poderia ser um jogo co-op divertido, viciante e especial.

Análise realizada via cópia digital gentilmente cedida pela Bethesda.

Revisão: Arthur Pieri

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