A representação das crianças de MAJORA’S MASK e os estágios do luto

Existe uma lenda urbana em cima da trama do jogo que diz que ela representa os cinco estágios [ou fases] do luto.

The Legend of Zelda – Majora’s Mask é um dos jogos mais sombrios da série. Todos os elementos e personagens do jogo são cercados de mistérios e um clima de urgência e incômodo acompanha o jogador do primeiro ao último segundo da jornada pelo misterioso mundo de Termina. Isso tudo se estabelece antes inclusive do sistema de três dias começar. O ciclo só serve para agravar essa urgência e esse incômodo que o jogo já havia estabelecido.

Existe uma lenda urbana em cima da trama do jogo que diz que ela representa os cinco estágios [ou fases] do luto. E como praticamente todo jogo, por mais que tenha um enredo bem amarrado, pode estar aberto a interpretações, vamos analisar Majora’s Mask por essa perspectiva, partindo do princípio que as crianças presentes no jogo representam a morte (mais adiante volto nisso e explico o porquê), e ver como tudo se encaixa.

Logo no início do jogo, Link encontra uma árvore Deku sem vida e com uma expressão triste. A primeira máscara do jovem na jornada é, justamente, a Deku Mask. Skull Kid te transforma antes que você possa agir, e quando a maldição é retirada, você fica apenas com a máscara, podendo realizar a transformação quando quiser.

Mais adiante você irá descobrir que as máscaras possuem esse poder de transformação porque espíritos estão presos nelas, e isso explica o fato de sua primeira máscara apenas se desvencilhar de você quando é tocada a Song of Healing, pelo Mask Salesman, um misterioso mercador que viaja pelo(s) mundo(s) com poderosas e misteriosas máscaras em seu poder.

Então, em posse das máscaras, você se transforma nos personagens que morreram e deram origem a elas. Sendo assim, acaba ficando óbvio que o espírito dentro da Deku Mask é da árvore tristonha, e mais pra frente em sua aventura pelo mundo de Termina, acontece outra coisa que reforça essa teoria, mas iremos chegar lá.

Assim, antes mesmo de chegarmos à cidade principal do jogo, Clock Town, já temos a primeira criança (a pequena árvore) e a primeira referência à morte.

Então finalmente ficamos conscientes da composição do mundo de Termina, que é composto por cinco grandes localizações, e cada um delas representa um dos estágios do luto através de seus personagens e, principalmente, pela forte presença das crianças.

NEGAÇÃO

Clock Town, a área central do jogo, serve como uma espécie de hub world para as outras áreas, e representaria a negação. Todos os personagens vivem suas vidas totalmente alheios à lua que a cada dia cresce mais no céu, se aproximando da terra, ameaçando a vida de todos que ali vivem. Ao invés de simplesmente olharem para cima e verem que, além de ter um rosto monstruoso, a Lua representa um perigo real e iminente, eles estão preocupados com o Carnival of Time, um evento organizado para o terceiro dia da ‘estadia’ de Link naquele local, e que vai coincidir com o fim de tudo, mas quase ninguém parece perceber o perigo. E caso percebam, simplesmente o ignoram, negam sua existência.

Alguns personagem, quando engajados em diálogos com Link, reconhecem a existência da Lua, mas não acreditam que ela representa qualquer tipo de ameaça. Outros estão em total situação de desespero quanto à situação, e existem os que simplesmente não percebem o que está acontecendo. A Negação é representada em várias formas e intensidades, criando desta forma uma sociedade que tem muita personalidade e vida, ainda que não percebam que esta está ameaçada.

Kafei é a principal criança dessa área. É um homem que, às vésperas de seu casamento, teve um inesperado encontro com Skull Kid e foi amaldiçoado e transformado em uma criança, tendo que se esconder de todos para que ninguém saiba o que aconteceu, até que ele consiga reverter a maldição. Já é a segunda criança que encontramos com uma história problemática, e não será a última.

RAIVA

Woodfall é a raiva. Na área dos Dekus, todos estão coléricos, pois sua princesa foi sequestrada deixando o rei e todos os seus súditos em um constante estado de alerta, transformando-se em criaturas extremamente hostis à presença de Link naquele lugar, fazendo com que ele tenha que passar por aquela área de forma furtiva e descobrir o que aconteceu com a princesa antes que o rei execute um macaco que foi pego e acusado de sequestra-la. E já completamente cegos pela raiva que tomou conta do local, todos estão dispostos a condená-lo sem qualquer prova de que ele realmente é o culpado.

E mesmo depois que resgatamos a princesa, uma das última cenas nessa área é com ela tendo um ataque de raiva com o rei, por ele ter tentado condenar um inocente macaco pelo seu sequestro, perpetuando o estado de raiva que tomou conta de todos os habitantes daquele local.

A criança dessa área nós já havíamos encontrado antes, é a pequena árvore que estava morta no começo do jogo. Durante a passagem por Woodfall, encontramos um mordomo que nos ajuda. E como Link tem que usar a Deku Mask nesta região, ele diz que você tem uma feição conhecida, que você o faz lembrar de seu filho. Isso porque, naquele momento, você é o filho dele, está usando a máscara que contém o espirito de seu filho, e se transformou em uma figura bem parecida. No final do jogo, após o término e os créditos, vemos o mordomo ao lado da árvore morta, com olhos de tristeza e vingança, reforçando esse vínculo com a raiva de Woodfall. Provavelmente seu filho saiu da região sem sua permissão e foi pego por Skull Kid enquanto este aterrorizava a floresta em que Link caiu quando chegou a Termina.

Eu disse que todas as crianças estão cercadas por histórias sombrias e muitas delas diretamente relacionadas à morte.

BARGANHA / NEGOCIAÇÃO

Snowhead é a barganha/negociação. Logo na entrada, encontramos um Goron que está com muita fome e pede para que você consiga alguma comida para ele, em troca disso, ele acaba te ajudando.

A casa do ferreiro está nesta área, e é lá que você vai conseguir os upgrades de sua espada, mas não sem antes entrar em um extenso processo de troca com ele, começando pelo descongelamento da área, para que ele possa utilizar o forno, caso contrário, sem upgrades.

E durante todo o seu caminho pela área dominada pelos Gorons, os personagens irão te pedir algum tipo de ajuda, oferecendo algo em troca, incluindo o fantasma Darmani, que te dará a Goron Mask, e o Goron Elder, que te pede ajuda com a criança deste local.

É um bebê que não para de chorar, e precisa ser acalmado a todo custo pois está perturbando a todos que ali residem. Você parte em uma jornada para conseguir algo que o faça parar de chorar, e quando consegue, em troca ele abre acesso à Goron Race, um minigame extremamente importante para que você consiga a última espada do jogo. Espada essa, é claro, forjada na Death Mountain ao custo de muita troca com o ferreiro, afinal de contas, essa é a constante daquele lugar.

DEPRESSÃO

Great Bay é a depressão. Logo no começo, você encontra Mikau, um Zora que estava em uma jornada para recuperar os ovos da cantora Lulu, a líder da banda The Indigo-Gos, que perdeu sua voz, e acabou causando uma grande tristeza no mundo dos Zoras. Mikau morre derrotado assim que vocês se encontram, deixando uma máscara com seu espírito dentro, para que você possa nadar livremente no mundo dos Zoras.

É nesse momento que você percebe com toda clareza como o sistema de máscaras de transformações funciona. E que você se transforma nas diversas raças do jogo porque o espírito daqueles que pereceram pelas mãos do Skull Kid [em posse da Majora’s Mask] ficam presos em novas máscaras.

Como Termina é uma espécie de universo paralelo, aqui os Zoras vivem no mar, ao contrário dos Zoras de Ocarina of Time que são criaturas de água doce. A área é um imenso oceano que está totalmente turvo e poluído, aumentando ainda mais a tristeza e depressão das criaturas daquele local, que além de terem perdido uma de suas principais atrações que sempre trouxe alegria, agora não podem mais nadar livremente em sua própria região, vivendo com um medo constante de se perderem e acabarem morrendo.

Aqui as crianças são representadas pelos sete ovos de Lulu, que foram roubados e estão correndo perigo sozinhos e perdidos naquele mar imenso e sujo. Sua missão como Zora Link é resgatar todos os sete e trazer de volta a alegria para a vida de sua mãe, fazendo com que ela possa cantar novamente e assim devolver um pouco de esperança para todos os moradores do local.

ACEITAÇÃO

Ikana Valley é a aceitação. Após visitar três áreas em que você precisava se transformar em outras criaturas para poder se sentir parte do ambiente, interagir com os personagens e assim completar suas missões, em Ikana Link consegue ser ele mesmo, sem máscaras. Finalmente o herói começa a entender que ele não era nenhuma daquelas pessoas cujas vidas ele estava vivendo para poder se sentir parte de algo. Isso já era explícito na forma como ele se transformava em uma criatura parecida, mas nunca igual a quem deixou seu espírito dentro da máscara. E agora essas máscaras se tornaram obsoletas, porque Ikana é o lugar onde você precisa se ver como realmente é, e começar a aceitar que apenas sua própria força é o necessário para que você possa progredir e conseguir finalmente sair daquele lugar estranho que você foi parar.

Em Ikana conhecemos Pamela, uma criança que vive aparentemente sozinha em uma casa que parece uma caixa de música. Mas ela não permite que Link se aproxime ou entre em sua casa. Ao conseguir entrar escondido, você descobre um monstro dentro da casa, que é o pai de Pamela, um cientista que se transformou e agora ela cuida dele sozinha até que ele consiga fugir de sua maldição. Quando você a ajuda, o que estava possuindo seu pai se transforma em uma das 24 máscaras do jogo, e ela (a Gibdo Mask) irá te ajudar a passar por algumas áreas controladas pelos Gibdos (as múmias do jogo) sem que você seja atacado.

A CRIANÇA INTERIOR

Majora’s Mask é o primeiro jogo da timeline do Link criança, e segue nosso herói nessa mesma forma. E, diferente de Ocarina of Time, em que ele precisa crescer [literalmente e metaforicamente] para enfrentar a maioria de seus desafios, aqui ele não tem essa oportunidade.

E o seu antagonista, Skull Kid, que é o responsável por tudo o que acontece de errado no caminho do nosso herói, nada mais é do que também uma criança. Skull Kids são crianças [Kokiris, Hylians] que se perderam em Lost Woods. Por nunca conseguir encontrar seu caminho de volta, elas acabam se tornando parte da floresta, e se transformam nessas criaturas humanóides com a pele que se assemelha a cascas de árvore.

Ou seja, no final das contas, você está enfrentando apenas uma criança perdida e assustada, que também serve como uma representação do seu demônio interior, uma vez que é assim que você começa o jogo: perdido e assustado, procurando por sua amiga que desapareceu.

O mal que permeia o jogo não é inerente de Skull Kid, mas sim da Máscara de Majora, que ele roubou do vendedor de máscaras no começo do jogo. Assim como as outras máscaras que nosso herói recolhe durante o jogo, ela guarda um espírito, mas um bem mais poderoso e disposto a possuir todos que a encontram, e causar um caos que permeie todo o mundo. Skull Kid é apenas um peão nessa história, literalmente apenas mais uma criança perdida e assustada.

AS CRIANÇAS DA LUA

Quando você soluciona os problemas de todas as áreas e finalmente consegue entrar na torre do relógio para enfrentar Skull Kid, Link é teletransportado para dentro da lua. Lá ele se encontra em uma área que é um imenso gramado verde com uma única árvore no centro, uma representação bem clara de Yggdrassil, a árvore da vida, que originou todos os mundos na mitologia nórdica.

A árvore pode ter duas representações nessa história. A de vida/morte do nosso herói, e a de universo paralelo, que é uma das representações de Termina, um universo com as mesmas pessoas de Hyrule, vivendo outras vidas em outro mundo.

Ali, você é testado por quatro crianças, que vestem as máscaras deixadas pelos grandes chefes de cada uma das áreas anteriores.

É interessante observar que você visita as áreas na ordem em que os estágios se manifestam, fortalecendo ainda mais essa conexão. Mas porque exatamente poderia existir essa ligação do jogo com o luto?

Este que vos escreve tem duas teorias:

– A primeira é que Link está passando por um luto, por isso essas representações estão tão presentes em sua nova jornada. O luto de ter perdido sua companheira Navi.

No final de Ocarina of Time, Navi vai embora e Link começa Majora’s Mask procurando-a. O jogo descreve o começo de sua aventura com um texto dizendo que ele está em busca de uma amiga perdida. Ele pode não ter encontrado Navi em uma boa situação, uma vez que ela ajudou o herói durante todo o tempo em OoT, pode ter sido ferida em batalha, ter tido suas forças esgotadas, entre outras situações. Assim, com a morte de sua companheira, Link ‘cai’ neste mundo invertido, onde ele encontra pessoas que ele já conhecia, vivendo outras vidas (os personagens de Ocarina e Majora são os mesmos, mas com nomes, vidas e personalidades diferentes).

– A segunda teoria é de que o próprio Link está morto, e estes estágios podem ser apenas simbólicos, representando o luto para alguém que irá sentir falta do herói (Saria, Zelda).

A teoria do Link morto se dá ao fato do mundo de Termina ser um looping, representando assim uma espécie de purgatório pelo qual o herói deve passar para provar seu lugar junto à Deusa Hylia. Isso também explicaria a árvore, e a presença forte de crianças no jogo e (como eu disse no começo) como elas representam a morte, porque elas seriam representações da queda do herói, que ainda era uma criança quando tudo isso aconteceu.

Ele teve, em seu purgatório particular, representações que lhe seriam familiares, e é por isso que as crianças exercem um papel tão vital e importante em Majora’s Mask.

E quando você finalmente consegue quebrar o ciclo dos três dia, você chega ao Dawn of a New Day (Amanhecer de Um Novo Dia), mas não necessariamente volta para o seu mundo. Isso pode significar que nosso herói finalmente saiu de seu purgatório, e agora ele segue adiante, para guiar outros heróis ao lado da Deusa.

Revisão: Pedro Vicente