REVIEW | DOOM ETERNAL é milagre tecnológico no Nintendo Switch e mantém toda a adrenalina que o jogo precisa

Com várias indicações a jogo do ano de 2020, DOOM: Eternal se destaca sim como um dos melhores games que surgiram nesse ano tão conturbado.

O ano de 2016 marcou o retorno triunfante de DOOM. O novo game trazia de volta a ação, velocidade e sanguinolência vista nos games mais antigos da série, mas com uma roupagem mais moderna. Em 2018 o pequeno Nintendo Switch recebeu sua versão do jogo e foi o primeiro de vários ports considerados impossíveis, mas que estão aí funcionando perfeitamente no aparelho.

Quando a Bethesda anunciou a sequência DOOM: Eternal, o Switch estava entre os consoles que receberiam o game. Com alguns meses de atraso em relação às demais plataformas, os donos do aparelho finalmente colocaram a mão na versão deste que, sem dúvidas, é um dos melhores jogos do ano.


EM DIREÇÃO AO FUTURO MAS COM OS DOIS OLHOS NO PASSADO

Apesar de muitos acharem que DOOM de 2016 era um recomeço ou até mesmo um novo universo da franquia, o game era uma sequência direta de DOOM 64. DOOM: Eternal, por sua vez, continua de onde o anterior parou, mas oito meses depois. Acontecimentos que ainda não foram explicados levaram o protagonista DOOM Slayer a buscar uma forma de impedir a invasão demoníaca à Terra. A raça Maykrs, que representa o angelical no mundo de DOOM, perdeu seu Deus de forma misteriosa e busca se manter viva através de um pacto com o inferno, oferecendo planetas para os demônios em troca de não definharem e sumirem pela eternidade.

Os planetas tomados pelo inferno tem sua população torturada e sacrificada para que suas almas se transformem em energia, e a fim de impedir que os humanos sejam exterminados, DOOM Slayer parte em busca de eliminar os Sacerdotes Maykrs e impedir que o ritual que condenou nosso planeta se concretize.

A história de DOOM: Eternal é surpreendentemente complexa e profunda. Diferente do game anterior, que não se preocupava tanto se você estava muito interessado na narrativa ou não, aqui os desenvolvedores vão fundo para contar o que acontece e aconteceu no passado, e a quantidade de informação sobre o universo é gigantesca. Durante o jogo encontramos diversos documentos que dão acesso ao vasto conteúdo sobre os personagens, lugares e acontecimentos ao longo desses mais de 20 anos de franquia. Curtir o game apenas pelo combate e diversão que proporciona, sem se aprofundar na “lore”, é totalmente aceitável e normal. Mas ao se entranhar nos inúmeros textos presentes, descobrimos muita coisa interessante por trás do que estamos jogando. O único problema disso fica por conta do excesso. Como existem muitas informações que são passadas ao longo das fases, o ritmo acaba prejudicado. Uma boa forma de aproveitar todo o conteúdo sem quebrar a fluidez da jogatina é visitar o códice em momentos que você quer apenas descobrir mais sobre o jogo, e não quando encontra os documentos.


A DANÇA DAS PRIORIDADES

DOOM: Eternal é basicamente o game de 2016 com mais, muito mais. Mais combate, mais ação, mais velocidade. E o que já era bom ficou melhor justamente por adicionarem novos e divertidos elementos ao gameplay.

Estripar e dilacerar se tornam mais que frases de efeito, mas uma mecânica de jogo. Ao andar e atirar pelo cenário, é preciso decidir como reagir diante do desafio proposto. Os combates acontecem em arenas com plataformas, vários inimigos surgem por todos os lados e é preciso derrotá-los conforme a prioridade. Existem os que mandam mísseis teleguiados e devem ser exterminados de imediato. Já os que possuem uma torreta dão ainda mais trabalho, porém os que correm em sua direção podem causar danos mais graves, portanto é preciso definir qual o monstro que oferece mais risco e destruí-lo primeiro. Esse sistema é dinâmico, muito divertido e não se torna repetitivo, já que o game adiciona novos elementos constantemente e é preciso sempre aprender a dominar novas armas e a lidar com diferentes inimigos.

Cada demônio exige uma maneira de ser enfrentado. Os pontos fracos estreiam em DOOM: Eternal e trazem mais variedade para os tiroteios. Utilizar armas de plasma para quebrar escudos, jogar uma granada, ou acertar nos olhos de um inimigo são alguns dos exemplos do que se pede para o jogador avançar. Não dominar essas formas de combate fazem com que seja praticamente impossível progredir.

E não só as novas armas de tiro entram na dança, como é necessário usar ataques específicos para conseguir se manter vivo. Assim como no game anterior, finalizar o inimigo com uma execução gloriosa recupera vida, enquanto usar a motosserra faz os monstros derrubarem munição. A novidade fica com o lança-chamas, que quando o inimigo está sob seu efeito, sua execução libera pedaços do escudo que protege o protagonista.

Com todos esses elementos combinados temos um dos combates mais rápidos e frenéticos dos games, que remete aos grandes figurões de ação da CAPCOM e Platinum, como Devil May Cry e Bayonetta.


DOMINE AS HABILIDADES E NÃO ESQUEÇA DE NENHUMA DELAS

Para lidar com a quantidade enorme de monstros que aparecem pelos cenários, os desenvolvedores decidiram apostar em velocidade e agilidade. Jogar DOOM: Eternal exige coordenação motora dos dedos e uma percepção aguçada, já que é preciso estar atento a tudo que está acontecendo ao mesmo tempo e numa frequência insana. Para ajudar, além de atirar e andar, é preciso se esquivar dos ataques usando a investida. Esse movimento, que surge como novidade em Eternal, é tão essencial que me deixou na dúvida se no jogo anterior ele já existia, pois se incorporou perfeitamente, transformando o rápido em frenético. As já mencionadas Execuções Gloriosas também funcionam como elemento de movimentação, já que ao pressionar o botão para realizá-la, o jogador pode ser transportado com mais velocidade ao inimigo que está piscando atordoado, fazendo com que todas as mecânicas conversem de uma maneira excepcional.

A movimentação serve para correr, esquivar e atirar em monstros, mas também é usada na exploração. DOOM: Eternal conta com desafios de plataforma nas fases, que podem agradar alguns e desagradar outros. Sem exigir tanta precisão assim, esses momentos surgem para aliviar a tensão do combate no jogo e são divertidos na medida certa. No início, o jogador pode se sentir bastante perdido sem saber como prosseguir, porém rapidamente percebe que luzes verdes pelo cenário indicam o caminho, e geralmente são paredes escaláveis ou pequenas elevações escondidas.

Pular e se esquivar de plataformas com fogo giratório não serve somente para deixar o jogo mais divertido e criar um momento menos tenso entre os combates, mas também para encontrar itens de evolução de personagem, melhoria de armas  e árvore de habilidades, além de pequenos segredos como as miniaturas dos demônios do game.

O que poderia ser considerada uma falha é que o game adiciona às mecânicas principais já no começo, e logo em seguida exige que o jogador use as habilidades sem ter absorvido tudo. O que causa confusão, já que constantemente esquecemos de utilizar algum recurso necessário e acabamos morrendo. Mas talvez seja proposital, para que o início seja um pouco mais frustrante, e da segunda hora pra frente o jogador sinta que evoluiu e está dominando rapidamente o jogo. Seja qual for a intenção dos desenvolvedores, essa confusão passa logo e a diversão domina a jogatina.


VERMELHO, VERDE E CINZA

O uso das cores nesse game merece uma análise à parte. No anterior, o tom marrom e vermelho dominavam a tela, deixando tudo com um clima quente e claustrofóbico, que servia ao jogo. Em Eternal o cenário muda, e com isso mais cores surgem. O vermelho ainda existe, mas se juntam a ele tons fortes de cinza e prata, criando o Cyberdemoníaco que remete aos clássicos da série. Lasers, hologramas e até mesmo inimigos ajudam a completar a paleta de cores mais diversa dessa sequência, deixando os gráficos ainda mais bonitos e realistas. Em meio a todo o cenário, luzes verdes indicam o caminho a ser usado para prosseguir, e até os itens deixados pelos inimigos são identificados por sua coloração, sendo azul para vida, verde para escudo e roxo para munição.


O MILAGRE DE JOGAR DOOM ETERNAL NO NINTENDO SWITCH

DOOM: Eternal é um colosso. No PC e consoles maiores, o game possui visuais incríveis e com 60 quadros por segundo estáveis. Porta-lo para o Nintendo Switch com certeza não foi tarefa fácil, mas os desenvolvedores talentosos da Panic Button conseguiram. Não foi a primeira vez que realizaram essa façanha, já que DOOM 2016 e Wolfenstein II também estão no Switch, mas o desafio agora era ainda maior, já que o novo exige ainda mais dos aparelhos.

Desafio maior, mas superado com louvor. DOOM: Eternal é sensacional no pequeno híbrido da Nintendo. Concessões precisaram ser feitas, obviamente, como a resolução, que é bem menor e oscila bastante durante a jogatina, podendo deixar a imagem bastante borrada em momentos com mais elementos na tela. A quantidade de quadros por segundo cai para 30, mas chega ser impressionante que, mesmo com o framerate pela metade em relação a outras plataformas, o jogo ainda é extremamente rápido e dificilmente possui quedas de frames. Em arenas que os inimigos surgem aos montes, a performance continua estável e a experiência é totalmente satisfatória.

Encontrei alguns bugs pelo caminho, como o game reiniciando meu console sem motivo algum ou até mesmo uma fase que não avançou pois os inimigos não notavam a minha presença, mas é algo esperado em um lançamento desse porte e os desenvolvedores já estão trabalhando em correções.

O grande defeito no console da Nintendo é a falta da versão física. Ocupando aproximadamente 18gb, mais da metade do armazenamento interno do aparelho, e não é todo dia que podemos adquirir cartões micro SD mais robustos para expandir a memória.

Nenhum conteúdo foi cortado ou reduzido, DOOM: Eternal está em toda sua plenitude funcionando no Nintendo Switch. A experiência de jogar na telinha do console ou em qualquer outra plataforma é a mesma e é certo que donos do aparelho e fãs de DOOM estão muito bem atendidos com esse port.


BATE CABEL… DIGO BATE CABEÇA ENQUANTO JOGA

DOOM e metal caminham juntos. Os criadores da franquia John Carmack e John Romero desenvolveram o primeiro jogo ao som de Heavy Metal, e mesmo com as limitações da época, colocaram sons que lembravam acordes de guitarra e bateria com pedal duplo. Com os adventos da tecnologia, foi possível inserir música instrumental, fazendo os headbangers fãs de DOOM se deliciarem com a trilha sonora. Músicas que remetem aos clássicos do gênero dos anos 90 e 2000 se misturam com novos estilos surgidos na década passada para criar o clima perfeito para o game. Fases que antecipam batalhas com chefes têm músicas mais tensas e preparam para um clímax iminente, já os combates têm composições intensas e frenéticas que tornam tudo ainda mais impactante.

DOOM 2016 teve dublagem em Português Brasileiro no PC e nos consoles onde foi lançado, menos na versão de Nintendo Switch. A sequência chegou ao híbrido um mês após a Nintendo aterrissar no Brasil de forma oficial, portanto toda a localização está presente. A dublagem está impecável e os textos muito bem traduzidos para nosso idioma. Por trazer tanta informação sobre o universo de DOOM a acessibilidade é ainda mais fundamental que no anterior.

Jogar DOOM: Eternal chega a ser desgastante. Terminar uma partida com os dedos doloridos de tão tensos e tentando recuperar o fôlego é normal, esperado e totalmente recompensador. O combate frenético e as mecânicas bem elaboradas associadas a trilha sonora pesadíssima criam um clima cativante que envolve o jogador de uma forma que é difícil jogar apenas alguns minutos. A história do novo jogo expande ainda mais o universo e nos deixa com boas expectativas para uma possível sequência. Talvez o excesso de documentos quebre um pouco o ritmo do jogo, mas nada que acumular a leitura para momentos de calmaria não resolva. A versão de Nintendo Switch é sim a mais fraca visualmente e a performance, apesar de estável, foi bastante reduzida. Porém, é um milagre tecnológico. É incrível ver um dispositivo tão pequeno rodando um jogo de tamanho calibre, mantendo a experiência idêntica aos dos consoles e PCs mais parrudos, mesmo em modo portátil.

Com várias indicações a jogo do ano de 2020, DOOM: Eternal se destaca sim como um dos melhores games que surgiram nesse ano tão conturbado. E fica a dica: passar várias horas enfrentando demônios e logo em seguida visitar sua ilha de Animal Crossing: New Horizons para relaxar é sim uma das melhores sensações que os video games podem proporcionar.


Revisão: Angelo Mota


Esta análise foi feita com cópia do jogo gentilmente cedida pela Bethesda.