REVIEW | METROID PRIME: FEDERATION FORCE e o medo do desconhecido

Durante todo o curso de sua pré-existência [que vai do anuncio até o lançamento], Metroid Prime: Federation Force se viu preso nessa teia de informações desencontradas.

É comum rejeitar e ter um pouco de receio do que é novo, do que é diferente. Principalmente em se tratando de um espaço como a internet, em que as informações se espalham como fogo em mato seco, e muitas vezes são repassadas da forma como foram recebidas, sem receber qualquer tipo de tratamento daquele receptor, que apenas a encaminha para frente, deixando que ela se alastre cada vez mais e fique totalmente sem controle.

Durante todo o curso de sua pré-existência [que vai do anuncio até o lançamento], Metroid Prime: Federation Force se viu preso nessa teia de informações desencontradas. Porque até então ele representava apenas um Metroid sem a Samus, e nada além disso. Ele não tinha tido a oportunidade de mostrar o que realmente era, mas foi decidido de imediato o que ele não era: Um Metroid.

É fácil dizer ‘exploração’, ‘Samus’, quando se pergunta o que um jogo precisa para ser um Metroid [apesar de acreditarmos que tudo o que ele precisa é ter essas sete letras em seu título], mas poucos sabem realmente dizer o que exatamente desclassifica Federation Force como um Metroid. E caso os argumentos sejam Samus e Exploração, eles estão lá, representados na forma de um ‘verdadeiro Metroid’.

E quem tiver coragem de passar por esse julgamento inicial vai se deparar com um jogo que não só é um dos trabalhos mais bem desenvolvidos dentro da vasta e diversificada biblioteca do Nintendo 3DS, como também pode se ver imerso em um mundo bem familiar para os fãs da série de exploração espacial da Nintendo: O Mundo de Prime.

A FORÇA DA FEDERAÇÃO

Metroid Prime: Federation Force acontece após os eventos da Trilogia Prime, e a Força que dá nome ao jogo é uma divisão espacial dedicada a explorar alguns dos planetas por onde Samus passou e descobrir o que aconteceu com os piratas espaciais, que estão desaparecidos e podem por isso estar tramando alguma coisa que possa interromper novamente a paz intergalática que nossa heroína lutou tanto para tentar estabelecer.

Você irá se ver na posição de um desses oficiais, e deverá explorar, juntamente com seu time, os planetas que foram selecionados para sua equipe. Essa exploração em conjunto, além da dar sentido e força para a história que é contada no jogo, ainda permite que uma experiência multiplayer se desenvolva como nunca antes foi feita na série Metroid. Mas que já foi muito bem sucedida na série Zelda. Então se você já se aventurou por Tri Force Heroes, irá se familiarizar logo de cara com o formato de Federation [com exceção da possibilidade de pegar seu companheiro de aventura no colo e atirá-lo de um penhasco].

Seu personagem contará com o auxílio de um Mecha [um robô gigante] para realizar as missões, afinal de contas nem todos os integrantes da Federação têm a armadura cheia de recursos de Samus. Mas o Mecha funcionará da mesma forma, trazendo familiaridade ao jogo. Sua visão é totalmente em primeira pessoa, e você visualiza apenas o braço direito de seu robô, por onde você irá disparar diferentes tipos de beams e mísseis, assim como acontecia [em todos os jogos Metroid] na Trilogia Prime.

Tudo é deliciosamente familiar no gameplay, exceto talvez pela forma de se recuperar energia. Além de ser mais complicado do que deveria, pode causar alguns momentos intencionais de desespero na luta contra alguns chefes. Mas isso é justificável pelo fato de seu inventário ser limitado em cada missão, e você tem que escolher com sabedoria quais itens levar, ou poderá se encontrar em situações pouco agradáveis. Afinal de contas, assim como em qualquer outro jogo de exploração, caixas de itens são abundantes quando você está com tudo no máximo, e desaparecem misteriosamente quando seu inventário está prestes a atingir o zero absoluto.

É PERIGOSO IR SOZINHO…

Zelda já nos ensinou. E Federation Force colocou isso em prática. O Multiplayer do jogo compreende todo o gameplay. Você pode iniciar a aventura ao lado de amigos localmente via download play ou com desconhecidos online e terminá-la desta forma. Mas ele é opcional, então você pode escolher enfrentar tudo sozinho. E é aí que as coisas literalmente complicam. Alguns puzzles do jogo são feitos em quatro etapas, mostrando que foram claramente desenvolvidos para o multiplayer, e se transformam em verdadeiros desafios quando realizados sozinho. Muitas vezes as missões podem ficar tediosas e o senso de desolação que o jogo passa pode chegar a níveis perturbadores quando se aventura solo pelos planetas. E não para por aí. A dificuldade do jogo não é nivelada de forma diferente para o multi e o single. Portanto você irá enfrentar os mesmos inimigos, com a mesma carga de vida, independente se você está acompanhado ou sozinho, deixando a jornada do single-player ainda mais desafiadora (mas não impossível ou menos divertida).

As batalhas contra chefes oferecem o balanço que sempre vimos em Metroid. Muito tiro, movimentação frenética, pontos fracos, habilidade para gerenciar suas vida e agilidade para correr e atirar enquanto tenta desviar das investidas do inimigo e tomar a menor quantidade de dano possível para ser bem sucedido em sua missão.

Jogar com amigos no multiplayer local é uma tarefa mais fácil e divertida, porque vocês podem se comunicar e direcionar seus objetivos de forma mais prática. O online pode ser frustrante para algumas pessoas, uma vez que as comunicações são realizadas por frases pré-definidas, assim como acontece em Splatoon. Mas a ausência de um chat de voz muitas vezes funciona de forma benéfica, porque evita que jogadores mais experientes tentem tomar controle da situação dando ordens para quem tem menos experiência. Sem comunicação todos os jogadores são nivelados, e vocês devem descobrir a melhor forma de resolver todos os puzzles e explorar cada canto daquele mundo sem atrapalhar o progresso do outro jogador. Porque a missão de resolver os problemas em equipe pode ser mais difícil do que parece.

O QUE PRECISA PARA SER UM METROID

O jogo não possui um mundo unificado totalmente explorável. Ele é separado por missões, que são acessadas através de um painel na nave da Federação. A partir dali, você é enviado para diferentes áreas de diferentes planetas para poder realizar suas tarefas. As áreas dessas missões, porém, são amplas e com exploração livre em um mundo 3D muito bem desenvolvido. O estilo chibi dos personagens permite que ambientes maiores sejam criados na pequena tela do 3DS, e as ambientações, mesmo quando abandonadas e desoladas, ou cobertas totalmente por gelo, são vivas e muito coloridas, remetendo diretamente ao mundo criado na Trilogia Prime.

Cada missão possui um objetivo principal, e existem outros paralelos que podem ser completados ou não, aumentando o fator replay do jogo e ampliando o sentido de exploração que a série Metroid sempre se orgulhou de ter. Rotas paralelas, salas escondidas atrás de paredes, frestas que estão praticamente invisíveis até que você utilize sem campo de visão para escanear todos os cenários em 360º, tudo leva a itens escondidos que realizarão melhorias em seu mecha. Essas melhorias são chamadas de MODs, e são muito úteis quando utilizadas de forma correta em cada uma das missões. Os MODs podem te deixar invencível por algum tempo, fornecer mais um slot de energia, diminuir o impacto de determinados ataques que você recebe, e por aí vai. Alguns deles inclusive funcionam de forma a auxiliar na aventura single player, não permitindo que o jogador se frustre tanto com missões mais difíceis.

DOIS JOGOS EM UM

Quando a série Prime estava em seu auge no GameCube, foi criado pela Fuse Games [para o Nintendo DS] Metroid Prime Pinball, um jogo que utilizava Samus em sua forma Morph Ball em mesas da Pinball familiares para quem já tinha jogado o primeiro jogo, mostrando que Metroid pode utilizar seus próprios recursos para fugir da mesmice e oferecer experiências um tanto quanto diferentes para seus jogadores. Em Federation Force temos um equivalente em Blast Ball, mas aqui as coisas funcionam um pouco diferentes. Além de vir como um extra dentro do game principal, adicionando ainda mais a uma experiência que, por si só, já é bem completa, o game em si é outro, funcionando como uma espécie de futebol com os Mechas que você utiliza durante a campanha principal.

Blast Ball também oferece ao jogador a oportunidade de se aventurar sozinho, em multiplayer local ou online, proporcionando partidas divertidas e desafiadoras, uma vez que a própria bola do jogo não pode tocar nenhum dos jogadores, ou causará danos em seu robô. Todo o movimento da bola deve ser feito com tiros, o que deixa tudo mais errático e inesperado. Ter o controle da situação não será fácil e tudo irá se voltar contra você, incluindo seus companheiros de partida, que podem acidentalmente atirar a bola em sua direção e fazer com que você acabe se prejudicando.

É um jogo que requer habilidade e precisão, e prepara o jogador para que ele consiga explorar o mundo de Federation Force da melhor forma possível. A campanha principal conta com um extenso e elaborado tutorial, mas Blast Ball também funciona nesse aspecto, além de proporcionar muita diversão.

LEVE SAMUS COM VOCÊ

E quando a saudade de Samus bater no fundo do coração, leve-a com você, personalizada no seu Mecha. Os amiibo de Samus, qualquer um dos dois, personalizam seu robô com as cores da heroína, fazendo com que ele se transforme em uma espécie de Samus Megazord. E você ainda pode utilizar Mario e Bowser para personalizações dentro das batalhas de Blast Ball. De qualquer forma, existem homenagens escondidas para a série no jogo, e ele nunca te deixa esquecer que você está jogando um Metroid. Seja pelos puzzles, pela ambientação, pelo Mecha personalizado de Samus, ou pelo simples fato de que, sempre que você olha através daquele visor, enquanto aniquila seus inimigos, você sente uma sensação de familiaridade, e sabe exatamente o que está jogando.

Mas não para por aí. O jogo mostra uma imagem de Samus logo no começo, como parte importante da história, criando uma ligação importante com a Trilogia Prime, justificando o subtítulo deste episódio. Além de exibir nossa heroína em toda a sua glória chibi, mostrando que ela ficou adorável nesse formato, obedecendo os conceitos do jogo, e criando uma esperança de que possamos ver uma continuidade da série nas mãos da Next Level Games, e um dia possamos ver Samus em ação no 3DS [ou no portátil sucessor]. Mas se essa imagem que aparece no começo não for o suficiente, o jogo conta com um item [ao mesmo tempo bizarro e divertido] chamado Decoy Samus. Ele atira um boneco da heroína no cenário para confundir os inimigos. E então finalmente podemos ver um modelo totalmente em 3D, e em movimento, mesmo que seja o movimento de um boneco que apenas balança para os lados.

LEVANDO A SÉRIE PARA O ‘NEXT LEVEL’

Por mais que sejam dois mundos totalmente distintos, é muito fácil reconhecer o trabalho que a Next Level Games fez em Luigi’s Mansion Dark Moon impresso por todos os lados em Federation Force. A textura dos cenários, o incrível controle do efeito 3D e a forma como ele trabalha a favor do gameplay, não funcionando apenas para ‘florir’ o jogo. Tudo tem a marca registrada da desenvolvedora, que já havia mostrado extrema competência ao assumir a série de Luigi e agora reafirma essa posição ao trabalhar na série de Samus.

Metroid pode ter seguido uma ‘fórmula’ de sucesso durante muitos anos, mas a série nunca se estagnou no lugar comum. Como uma boa franquia da Nintendo, ela sempre buscou se reinventar, inovar seus conceitos, romper paradigmas, para que pudesse se manter sempre fresca e atual para seus fãs. A própria sub-série Prime faz parte desse conceito de reinvenção. Quem um dia imaginou, olhando os jogos antigos em side-scroll, que iríamos um dia explorar um mundo totalmente 3D [essa parte era fácil] em PRIMEIRA PESSOA. Foram três episódios que contaram uma história que seria imortalizada dentro da série, e entraria para o hall da fama dos games, por ser um trabalho extremamente competente. Mas querer que a série ficasse presa nesse conceito para sempre, o desejo pela continuidade da série Prime nesse formato, é prender uma série tão rica a um único elemento, deixando-a, de certa forma, monocromática. O sonho por um Prime 4 ainda vive, e temos muita certeza de que um dia isso vai acontecer, e por isso é extremamente importante ter Federation Force no meio do caminho, contando com um ponto de vista diferente, deixando esse universo ainda mais rico e diversificado.Por isso é necessário reconhecer sua relevância, e entender sua posição.

E então nós voltamos para Prime, mas com outros olhos, em uma nova abordagem. E é isso que gera diversidade: os diferentes pontos de vista. Ver tudo por um ângulo só é fácil e cômodo, mas aceitar outros pontos de vista pode fazer com que você enxergue as coisas de uma forma nova, e entenda melhor o conceito completo. E é isso que Federation Force propõe, que possamos permitir que novas histórias sejam contadas, não apenas no mundo de Metroid, mas dentro do que conhecemos como Prime.

Seria mais fácil a Next Level Games ter criado uma nova IP para a Nintendo com esse mesmo jogo. Seria mais fácil ele não se chamar Metroid, e ser apenas Federation Force. Ou, caso ele quisesse mesmo ser um Metroid, seria mais fácil ele não ser Prime, não tentar fazer parte de uma sub-série tão clássica e adorada. Seria. Mas é através dos riscos que essas devs correm que somos capazes de conhecer projetos novos, projetos diferentes, projetos arriscados. Afinal de contas, você jogou ou não jogou The Legend of Zelda – The Wind Waker? E mesmo que não tenha jogado, conhece ou não conhece o que o jogo passou pra chegar onde chegou? Então o mínimo que você pode fazer, enquanto fã da Nintendo, enquanto fã de Metroid, é dar uma chance para Metroid Prime: Federation Force. Você pode se surpreender.