REVIEW | PERSONA 5 STRIKERS adiciona estratégias a batalhas eletrizantes

A primeira menção de Persona 5 Strikers foi em um teaser que, antes da revelação do nome, dava a impressão de se tratar de uma versão de Persona 5 para o Nintendo Switch, mas não foi o que aconteceu.

Falar do quanto a narrativa de Persona 5 é envolvente é chover no molhado. Com uma das melhores histórias já criadas para um RPG japonês, o game prende o jogador ao longo de suas 150 horas, combinando uma visual novel interessante e divertida com combates em turno emocionantes e inspirados. Lançado apenas para consoles PlayStation, o game se tornou um fenômeno, com direito ao seu protagonista fazer parte do time de lutadores principais de Super Smash Bros. Ultimate, uma das maiores honras que um jogo pode ter atualmente. A Atlus, a fim de aproveitar o grande sucesso de seu game decidiu continuar a história, mas levando para novos rumos.


P5S NÃO É PERSONA 5 SWITCH

A primeira menção de Persona 5 Strikers foi em um teaser que, antes da revelação do nome, dava a impressão de se tratar de uma versão de Persona 5 para o Nintendo Switch, mas não foi o que aconteceu. Após o anúncio oficial, descobrimos que P5S se tratava de Persona 5 Scramble, uma sequência do RPG e misturaria a narrativa da franquia com elementos de musou, gênero conhecido por batalhas frenéticas e caóticas contra hordas gigantescas de inimigos. Foi lançado em 2020 no Japão e pouco tempo depois Scramble virou Strikers e foi finalmente anunciado para o ocidente.

Mas essa combinação é possível? Será que temos um jogo que faz jus ao excelente RPG original? Junte-se aos Phantom Thieves na busca de um mundo mais justo e vamos descobrir.


COMO É BOM REVER AMIGOS

Persona 5 Strikers é uma sequência direta do RPG, porém não perde um segundo sequer contextualizando o jogador sobre acontecimentos anteriores, inclusive entregando detalhes da trama principal já em suas primeiras cenas, entendendo que quem buscou o jogo já está familiarizado com o universo, os personagens e até mesmo a narrativa.

Qualquer detalhe da história que for comentada pode soar como spoiler da aventura principal, portanto deve-se ter cuidado ao tratar desse assunto, mas é possível mencionar como a narrativa se desenrola sem estragar grandes surpresas.

O gênero musou tem sido bem utilizado para mostrar ao jogador diferentes facetas e interações de personagens queridos de jogos de outros estilos. Acompanhar todo o fanservice de Hyrule Warriors, Fire Emblem Warriors e Dragon Quest Heroes é emocionante, pois coloca inúmeros personagens queridos para lidar com novas situações de combate e exploração, como nunca antes vistas em suas séries principais, inclusive permitindo o jogador controlar alguns pela primeira vez.

Porém, com o passar do tempo, começamos a ver uma modificação nessa fórmula e temos jogos onde a franquia principal incorpora elementos de musou e não o contrário, como é o caso de Hyrule Warriors: Age of Calamity e agora de Persona 5 Strikers.


MUSOU DE PERSONA 5 OU SERIA PERSONA 5 COM MUSOU?

A estrutura narrativa de Strikers é totalmente baseada em Persona 5. O sistema de combate visto nos musou anteriores dá lugar para a exploração mais tradicional do RPG enquanto a história se desenvolve de maneira linear, no estilo visual novel.

Jogadores de Persona 5 se sentirão em casa rapidamente ao iniciar Strikers. Passear pelas ruas de Shibuya é nostálgico, e rever seus amigos traz sentimentos de segurança e conforto, mas logo os planos de passar um verão divertido são frustrados pela presença das Jails. Parecidas com os Palaces da aventura original, as Jails são prisões em um universo paralelo. Dominadas por um monarca, essas prisões parecem estar causando um distúrbio no mundo real.

Pessoas que têm acesso a um aplicativo de Inteligência Artificial parecem ficar obcecadas por uma Idol, e querem consumir todos os seus produtos de maneira compulsiva. Claro que, por trás desses acontecimentos, algo maior parece rondar o Metaverso, pois várias pessoas pelo Japão estão confessando seus crimes em rede nacional, como as “mudanças de coração” vistas no game anterior, que como já sabemos, eram causadas pelos Phantom Thieves. Mas se nossos heróis não estão mais roubando corações no universo cognitivo, quem poderia estar por trás dessas mudanças bruscas de comportamento? E o que significam essas Jails? e porque de repente todos estão apaixonados pela Idol Alice? Para ajudá-los, Gramps, ou melhor, o investigador de polícia Zenkichi, oferece seus serviços.

A trama, que inicialmente parece fazer uma crítica social a pessoas que estão viciadas em tecnologia, ganha novas leituras à medida que continuamos jogando, e logo toma ares mais sombrios, inclusive com pessoas lidando com traumas passados.

Com aproximadamente 10 a 15 horas de jogatina, todo o ar familiar é deixado de lado, já que a investigação leva os personagens a buscar informações em outras cidades. Sojiro, personagem importante no game anterior, consegue emprestado um furgão e os jovens começam uma viagem pelo Japão em busca de novas Jails.

Passeando por cidades como Sapporo e Okinawa, os Phantom Thieves entram nas novas Dungeons, que têm um estrutura bem parecida com as dos Palaces de Persona 5, com exceção dos combates.


MUITA ADRENALINA E ESTRATÉGIA

Agora em tempo real e não mais em turnos, as lutas ainda podem ser acionadas de modo furtivo para ganhar vantagem, ou da pior forma, que é quando o inimigo lhe vê e já iniciamos com desvantagens. Durante a batalha, misturamos os golpes físicos por meio de combos de botões, e as magias que consomem Stamina, mas causam dano que podem derrubar o rival caso as fraquezas sejam exploradas. Tonteando o inimigo, podemos executar o All-Out-Attack, em que todos os Thieves atacam um ou mais demônios de uma vez, causando dano ainda maior.

O segredo é saber o momento certo de usar esses golpes e conhecer os combos de cada um, já que o game exige que você tenha domínio das habilidades para ser bem sucedido nos combates. Explorar as fraquezas em danos elementais faz com que inimigos mais fortes tenham sua defesa quebrada, permitindo ataques mais poderosos e aos Baton Pass, que como no jogo anterior, são as trocas de personagens que aumentam a barra do Showtime, finalização mais potente de cada um. Dessa forma, o game incentiva a troca constante dos personagens, analisando qual o melhor ataque e defesa durante o combate.

A Stamina é elemento principal em Persona 5, e em Strikers não poderia ser diferente. Saber dosar o uso da magia é a chave para conseguir vencer, porém o uso em excesso pode esgotar o acesso a golpes poderosos. Alguns combos normais também ativam as Personas, demônios que os jogadores possuem e são responsáveis pelo uso das magias, portanto em alguns casos, por exemplo, é melhor utilizar uma sequência de ataques que finalizam com um Maragi, do que gastar SP (Stamina Points) para infringir dano de fogo no demônio rival.

É preciso estar constantemente atento aos status dos seus personagens, já que magias que causam pioras são usadas pelos inimigos e devemos revidar. Explorar os Buffs e Debuffs pode ser o que vai definir sua vitória ou derrota.

Seguindo a tradição da série, o jogador coleciona Personas e pode usar várias ao mesmo tempo em combate, enquanto seus companheiros só tem acesso a uma durante o jogo todo. Entrar na “Velvet Room” é essencial para melhorar o nível de suas Personas ou até mesmo fundi-las, gerando uma nova e mais poderosa entidade. Para capturá-las no RPG, Joker poderia derrubá-las e conversar, podendo convencer o rival a te ajudar. Em Strikers, as Personas aparecem em formato de máscaras para serem coletadas no campo de batalha.

O combate, apesar de ter mais ação, ainda é bastante estratégico e é bem diferente do que estamos acostumados em musou, se aproximando mais de Kingdom Hearts e Final Fantasy XV do que Dynasty Warriors, por exemplo. Estar preparado para enfrentar um calabouço significa buscar itens de cura e recuperação de SP e status, e ter tudo pronto para usá-los. Como não estamos mais em Tóquio, não temos acesso às lojas de personagens queridos, como o vendedor de armas Iwai e a médica Takemi, mas a solução encontrada não poderia ser melhor.


SOPHIA, COMPANHEIRA DA HUMANIDADE

Logo no início, somos apresentados a uma nova personagem, Sophia, que é uma inteligência artificial, e dentro das Jails assume forma humana e luta ao lado dos Phantom Thives. No mundo real, ela mora no celular do protagonista.

Ela também é responsável por fornecer vários itens, acessórios e armas, tornando o acesso muito mais rápido e instantâneo, sem precisar ir fisicamente às lojas. Como ela faz isso? Essa entrega imediata é contextualizada em um momento bem divertido na interação dos personagens.

Como uma boa IA, Sophia trata logo de direcionar nossos heróis para as melhores rotas, restaurantes mais próximos e claro, tenta entender como funcionam os sentimentos humanos. Afim de seguir sua diretriz, que é se tornar uma companheira da humanidade, Sophia é uma das personagens mais interessantes de acompanhar ao longo da campanha, e que está constantemente ao seu lado, assim como o Morgana.

Outra jornada bem interessante de acompanhar é do já mencionado investigador de polícia Zenkichi. Personagem que vai se transformando ao longo da narrativa e começa a fazer parte da vida dos heróis de diversas formas, causando uma dualidade entre suas ações e as reais intenções por trás delas.


NOVELA VISUAL PARA FÃS E NÃO FÃS DO GÊNERO

Descobrir novos cenários com os amados personagens é divertido e muito bem escrito. Uma das características mais marcantes do game original era seu excelente roteiro e a forma de contar sua história através de uma visual novel. Strikers segue o mesmo formato, mas com algumas modificações. Se antes tínhamos os Social Links, que eram os relacionamentos entre o protagonista e as pessoas que habitam o mundo, agora tudo se resume ao Bond, que é uma barra apenas, e que aumenta com o tempo conforme passamos bons momentos uns com os outros. Quando essa barra se completa, subimos um nível e ganhamos Bond Points para investir em diferentes habilidades e tornar os combates mais fáceis e a exploração mais suave.

A história se desenvolve de forma linear, passando em dias. Porém, diferente do RPG, aqui a passagem do tempo é definida pelo jogo, sendo possível realizar diversas tarefas sem nenhum efeito colateral. Nos Palácios de Persona 5, era preciso avançar pela Dungeon até certo ponto, e quanto mais se avançava sem sair dela e recuperar stamina, mais tempo no mundo real tínhamos para desenvolver nossas relações e melhorar os status.

Já em Strikers, sair e entrar das Jails não causa punição nenhuma, podendo recuperar a stamina a cada checkpoint visitado. Dessa forma, a passagem dos dias se torna algo meramente ilustrativo e não um elemento estratégico como antes. Além de ser algo frustrante, pois ao invés do game recuperar vida e magia automaticamente nos pontos de controle, ele força o jogador sair e entrar da Jail para ter seu time em plena forma. Uma burocracia desnecessária.

A estrutura do jogo se repete até chegar em um ponto que já estamos seguros com ela, e chega a hora de mudar mais uma vez, e a narrativa ganha novos rumos. É possível revisitar Jails anteriores para resolver Requests, missões paralelas que fornecem mais pontos de status, Bond e até mesmo itens valiosos. Navegar no metaverso é fácil, já que estamos lidando com um mundo alternativo, porém no mundo real não podemos voltar a lugares antes visitados por estarmos fisicamente longe, o que é uma pena, pois temos boas recriações de muitas localidades do Japão.


MÚSICA DE QUALIDADE PARA VIAGEM, POR FAVOR

É impossível falar de qualquer Persona sem mencionar sua trilha sonora. Criada por Shoji Meguro, veterano da série, as músicas são um deleite não só no  jogo, mas também como composições separadas para se ouvir em qualquer momento. Mas é dentro do contexto do game que elas brilham, e brilham de uma forma pouco vista em jogos, comentando precisamente os acontecimentos, principalmente nos momentos cantados, em que as letras retratam com perfeição os momentos que estão sendo apresentados.

E vai desde a deliciosa música de abertura até a cativante canção tocada enquanto estamos na loja do jogo, passando pelas composições que pontuam momentos de tensão, surpresa ou emoção dos protagonistas.

É  importante ressaltar que Strikers possui músicas anteriores remixadas, mas também temos algumas novas. A já excelente Last Surprise original ficou ainda melhor com a mixagem mais rápida para combinar com os combates intensos do musou, enquanto a nova e deliciosa You Are Stronger, que abre Strikers, dita o tom de Road Trip da narrativa que vamos acompanhar. A edição Deluxe do game é mais cara e tem como bônus a trilha sonora com mais de 40 músicas, e vale bastante a pena adquirir dessa forma para ter as músicas sempre por perto quando bater saudade do universo do game.


“LOOKING COOL, JOKER!”

Seguindo todo o visual do game original, Persona 5 Strikers esbanja estilo. Desde a ótima abertura até as belíssimas telas de menu, tudo possui movimento e transições. Mudar de uma área para outra já mostra uma animação de Joker cruzando a tela e até mesmo o menu de pausa tem artes incríveis dos personagens. O destaque fica para a loja de Sophie, que possui cores totalmente diferentes do resto da identidade visual do game, justamente para ressaltar que se trata de uma loja virtual dentro de uma tela de celular. De tempos em tempos, Persona 5 Strikers recompensa o jogador com belíssimas cenas em anime, com uma qualidade impecável de arte e técnica.

A única reclamação fica na sexualização desnecessária das personagens femininas. Em alguns momentos temos os rapazes ouvindo sem querer diálogos sobre o tamanho dos seios de uma das meninas. Uma cena chega a dar close no busto de uma garota e mostra a satisfação de um dos meninos em presenciar a cena. Não precisava desse tipo de situação que soa totalmente deslocado do resto da narrativa.

Persona 5 Strikers é um musou totalmente diferente do que estamos acostumados. Apresentando a narrativa do jogo original com apenas modificações no sistema de batalha, o jogo é mais uma sequência de Persona 5 trocando as batalhas por turno pela ação, do que um musou homenageando a franquia. e isso é excelente. As batalhas ganharam uma camada extra de estratégia, se tornando uma das melhores do gênero.

Para quem já jogou Persona 5, a sensação de Strikers é a de rever grandes amigos e passar alguns dias curtindo a companhia deles, enquanto conhecemos novos lugares e pessoas, tudo regado por uma excelente playlist. A história pode não ter a profundidade e complexidade do primeiro game, mas é divertida e bem escrita na medida certa, rendendo bons momentos nesse reencontro que com certeza vai ficar gravado na memória do jogador.


Revisão: Angelo Mota


Esta análise foi feita com código do jogo gentilmente cedido pela Atlus/Sega.