REVIEW | THE OUTER WORLDS sacrifica mais do que deveria para funcionar no Nintendo Switch

The Outer Worlds se apresenta como um excelente RPG, cheio de escolhas morais e bastante liberdade para montar seu personagem.

A desenvolvedora Virtuos surgiu no início dos anos 2000 criando games para diversos consoles. Mas recentemente tem sido bastante reconhecida pelos ports de vários jogos para diversas plataformas, incluindo para o Nintendo Switch. Algumas dessas versões são até consideradas pequenos milagres tecnológicos. Elijah Freeman, vice-presidente da empresa, chegou a declarar em uma entrevista ao site Maxi-Geek.com que é possível sim ter jogos da próxima geração rodando com tranquilidade no console.

É certo que nós, usuários da plataforma, queremos que qualquer jogo possa ser jogado no híbrido. A conveniência que a Nintendo nos apresentou de poder ter os jogos te acompanhando em qualquer lugar transforma a forma como consumimos games e acabamos ficando acostumados com isso. O principal problema de ter grandes produções no pequeno portátil é que o console não possui poder de processamento comparável aos aparelhos maiores. Fazendo com que os games sofram bastante perda de desempenho e de visual.

Mas como sabemos, ter o gráfico mais potente nos jogos, ou a melhor performance possível não é necessária para apreciar um bom jogo. Porém, será que existe algum limite para isso? Até que ponto podemos reduzir o visual de um game para tê-lo de forma portátil?

UM GRANDE MUNDO DE TEXTURAS DISTORCIDAS

Quando iniciamos a versão de The Outer Worlds para o Nintendo Switch, o impacto não é tão grande. Os poucos modelos vistos e até mesmo o criador de personagem aparecem um pouco embaçados, mas sem muitos problemas visuais. Nada que já não tenhamos visto acontecer no aparelho. Porém, é quando alcançamos a primeira área aberta do game, que o susto acontece.

Não é preciso ter tido contato com o game em outra plataforma para perceber que algo está errado. A visão fica tão turva que muitas vezes é impossível diferenciar inimigos de pedras e rochas a alguns metros de distância. Não importa se está jogando pela TV ou pelo modo portátil. O cenário se apresenta como se uma pessoa que use óculos estivesse jogando sem ele.

Mas é quando se tem o jogo nas mãos que a coisa se agrava e até mesmo modelos bem próximos tem seu visual totalmente prejudicado. As texturas, seja dos personagens ou no ambiente, aparecem borradas e muitas vezes demoram pra carregar, sendo possível vê-las surgindo do nada na sua frente, mesmo quando já estava parado por alguns momentos. Placas no horizonte só se tornam visíveis quando se aproxima bastante, sendo que nos outros videogames é possível vê-las a alguns metros de distância.

BEM-VINDO À PREMISSAS ESPACIAIS

Caso você passe pelo impacto inicial e se sinta interessado em continuar, The Outer Worlds se apresenta como um excelente RPG, cheio de escolhas morais e bastante liberdade para montar seu personagem. Não só na aparência ele é customizável, mas também atributos como força, percepção, destreza e outros. Já de início é possível escolher uma história, um pequeno passado para seu personagem que está despertando de um longo período de hibernação na nave Esperança. A nave, que também contém centenas de pessoas hibernando, estava em direção à colônia de Bonança. Porém passou por problemas técnicos e foi abandonada por muitos anos e todos os seus tripulantes foram deixados para morrer.

Aos poucos você é apresentado a essa nova realidade, onde grandes corporações dominaram toda a sociedade. Com a descoberta de viagens interplanetárias e até mesmo entre galáxias, essas mega corporações entraram numa grande disputa para colonizar e dominar novos planetas, os terraformando e os tornando habitáveis. O grande problema é que a visão deturpada das corporações de como deve ser a relação do ser humano com o seu trabalho criou um universo que enxerga suas pessoas como objetos, engrenagens a serem substituídas caso apresentem defeito. Um ambiente onde a ideia de sumir com uma nave cheia de pessoas apenas para não comprometer sua visão diante dos investidores prejudicando o lucro, é executada sem nenhum remorso.  E nesse contexto você surge como uma “variável inesperada”, conforme a própria sinopse do game diz.

Phineas Welles, um cientista que, sem muita explicação, lhe diz brevemente que você passou 70 anos em hibernação e que lhe jogará em um planeta para encontrar um contrabandista e pegar algumas peças para que possa desenvolver uma forma de trazer de volta os colonizadores de Esperança. Que eram nada menos que um conjunto das melhores mentes da terra. Ao cair em terra firme, você acaba matando, sem querer, o contrabandista Hawthorne, que digamos, entendeu de forma literal demais um recado. Você acaba sem o elemento que precisa e “herdando” a Falível, nave do rapaz sem sorte. Parte em busca de uma peça necessária para fazê-la decolar e descobre que a encontrará na usina geotérmica presente ali por perto.

Já em seus primeiros minutos de jogo você é apresentado a dois personagens. Ambos lideram um grupo de pessoas. O primeiro é Reed Tobson, gerente da fábrica de Saltum, uma espécie de falso atum enlatado, produto da corporação Premissas Espaciais da cidade de Pontagua. Cidade que está passando por uma crise forte, onde muito dos moradores e trabalhadores estão sofrendo de uma doença, aparentemente uma gripe, que se não tratada os leva a morte. Pontagua, que aparenta ter vivido dias melhores, é o contrário do laboratório de Botânica liderado por Adelaide Mcdevitt. Adelaide era uma das trabalhadoras da fábrica que produz o falso atum, que cansou da forma com que Reed trata seus funcionários e decidiu criar uma comunidade fora da cidade. Se tornando, junto com os que a acompanham, desertora na visão da Premissas Espaciais.

Surpreendentemente, Adelaide conseguiu criar no laboratório uma vegetação e desenvolver uma alimentação saudável para aqueles que decidiram segui-la. Ela aceita qualquer trabalhador que não esteja satisfeito ou satisfeita com a situação em Pontagua. E cuida deles para que se recuperem. Enquanto na cidade, Reed precisa decidir quem vai viver ou morrer baseado no desempenho do trabalho. E geralmente a conta não é muito boa para quem adoeceu, principalmente pelo que fazem as pessoas acreditarem por lá. “Se você adoeceu é porque não trabalhou o suficiente”, diz o gerente da fábrica. O que faz as pessoas que pegaram “A Praga” se sentirem ainda mais culpadas por não terem se esforçado mais, se entregando mais ao ofício.

Mas ao investigar os lugares, batendo um papinho com os moradores de cada região, é possível ver problemas em ambos os lados. E que talvez a escolha que parecia óbvia logo de cara, se torne bem mais complexa e difícil. E é nesse sistema de escolhas e opções que entra a mecânica mais divertido do jogo, que remete aos bons e velhos RPGs ocidentais para um jogador da Bioware, Mass Effect e Knights of The Old Republic.

UMA MISTURA QUE DÁ CERTO

A desenvolvedora Obsidian é conhecida por fazer um dos episódios mais icônicos da série da Bethesda, Fallout: New Vegas. E a inspiração rola forte aqui também. Seja na forma que os diálogos acontecem ou até mesmo no sistema de tiro em primeira pessoa, Fallout é com certeza a base para o desenvolvimento do game. Mas não a única.

É impossível não relembrar da utopia de Rapture de Bioshock, criada por Andrew Ryan, e do humor corporativo de Borderlands ao jogar The Outer Worlds. Porém, o pessoal da Obsidian e da Private Division conseguem imprimir muita personalidade ao seu game, o tornando uma mistura de tudo que era legal nessas inspirações do passado e até mesmo melhorando em vários aspectos. Os diálogos se tornam mais interessantes quando as opções vão além de decidir ser bom ou mau, por exemplo. E até mesmo o humor, que parece bastante com o visto nos jogos da série Bioshock, é desenvolvido de forma mais orgânica e menos enjoativa.

E claro que o jogador pode passar por todos os problemas das pessoas que encontra sem dar a mínima, apenas pensando em sí próprio e resolver sua questão. Porém, como mencionado, nem tudo é tão simples como parece. Ignorar totalmente o número de vidas destruídas ou o dano que uma arma nas mãos erradas pode causar não lhe impede de avançar. Mas não concede as melhores maneiras de enfrentar o seu próprio dilema. Ir direto para a usina geotérmica e buscar a peça que precisa é totalmente possível. Mas se não descobrir que existe uma maneira mais prática de eliminar os robôs vigias que existem por lá, a missão pode ser mais desgastante.

Uma pena que o game não possa ser resolvido totalmente através de diálogos. Desde o início é possível escolher um direcionamento para seu personagem. E como em qualquer outro RPG, ter uma classe definida e investir nela é a melhor opção, porém é preciso equilibrar as coisas. Querer ser um nerd do espaço, com ciência, tecnologia e diálogo altamente desenvolvidos em detrimento de força e ataque pode não ser uma boa ideia, já que o game lhe obriga a passar por momentos de combate. Uma boa opção é desenvolver habilidades de combate nos seus aliados que o acompanham na jornada. Deixando o tiroteio nas mãos deles enquanto você controla o uso de habilidades à distância.

UMA TRIPULAÇÃO DE RESPEITO

Assim como em Mass Effect, você pode recrutar uma tripulação que lhe acompanha durante a jornada. Já no início nos é apresentada Parvatti, curiosa mecânica e moradora de Pontágua. A liberdade de escolher como jogar é tamanha que lhe é permitido recusar a presença desses companheiros e seguir a jornada completamente sozinho. Ou até mesmo selecionar alguns específicos. Não gostou de alguém que convidou a tripular a Falível? Converse com ele e o mande embora e tudo certo. E dependendo de alguma ação que você tomar durante o jogo, alguns desses tripulantes não vão concordar e sairão de perto de você. Conhecê-los bem ajuda a evitar momentos constrangedores ou até mesmo ações que farão alguns te odiar.

IMERSÃO PREJUDICADA A FAVOR DA PORTABILIDADE

Ao avançar no jogo, percebemos que tudo foi alterado, modificado e reduzido ao extremo para funcionar no console da Nintendo. Chegando a um ponto crítico. É aqui que esbarramos no maior problema de se ter qualquer jogo de próxima geração no Switch. Mesmo que a performance atrapalhe em vários momentos, como nas batalhas contra inimigos em área externa, em que não só temos queda de quadros por segundo como também atraso na resposta dos controles e pequenos travamentos no jogo e no áudio, é possível relevar diante da visão artística do game original, que está sofrendo uma perda drástica.

Para quem teve contato, nem que seja mínimo, com o game em outras plataformas, é ainda mais perceptível o quanto de atmosfera e imersão se perde jogando o game no Switch. Os cenários, principalmente externos, não possuem muita variação nas texturas e elementos apresentados, como vegetação, destroços de naves e ruínas. Resultando na sensação de que mesmo em planetas diferentes, estamos sempre no mesmo lugar. É tudo muito borrado e lavado, dando a impressão que toda superfície é feita do mesmo material. Sangue, água e poços de ácido são difíceis de diferenciar em certos momentos. E só reparamos quando a suposta “água” começa a nos causar dano e percebemos que na verdade era um poço de ácido.

Em ambientes fechados ou até mesmo nas cidades, esse problema é amenizado. Mas não solucionado totalmente. Texturas de equipamentos do ambiente que originalmente possuem ferrugem ou elementos para evidenciar o tempo de uso ou desgaste somem totalmente. Prejudicando assim a criação do universo, pois não passa a ideia de que se trata de um lugar vivo.

AMBIENTES INTERNOS NÃO TÃO RUINS QUANTO OS ABERTOS

Quando entramos nos prédios e o game carrega toda a informação da área de uma vez, o visual é bem mais agradável. As texturas, apesar de ainda um pouco borradas, melhoram significativamente, inclusive a performance não é tão prejudicada. Se todo o jogo fosse executado como nessas áreas, não haveria nenhuma reclamação. Entrar na cidade de Angra Estelar tem menos impacto do que chegar no ambiente aberto do Vale Esmeralda.

Nos lugares mais amplos, além de não conseguir diferenciar um inimigo de uma placa, em vários momentos o game carregou atiradores e animais perigosos do meu lado enquanto eu passava pelas áreas. Resultando em morte instantânea já que não estava preparado ou até mesmo não vi aqueles inimigos se aproximando.

As máquinas de vendas estão espalhadas por todo o game e possuem papel importante. Não só para fornecer itens e melhorias para os personagens, mas também para mostrar o quanto aquele universo controlado por mega corporações é nocivo e prejudicial. Ao fazer compras, todas elas tocam o jingle referente à empresa que pertencem, e as luzes coloridas reforçam a informação. Mas na versão de Nintendo Switch se tornam um dos exemplos onde a perda visual é prejudicial. Quando vi essas máquinas no PC, percebi muito mais os elementos e mensagens que os desenvolvedores queriam transmitir. Como as cores características das marcas serem uma espécie de holograma. Inclusive, os hologramas usados para ressaltar um mundo tecnológico porém decadente estão presentes em vários ambientes do game. Porém, no Nintendo Switch, é quase imperceptível que algumas placas são feitas de luz e não uma textura de metal ou pedra.

A vegetação é outro elemento que sofreu um grande golpe. Na versão original as árvores, matos, gramado e até mesmo cogumelos gigantes ajudam a definir o ambiente que estamos. Na versão de Switch, apenas a vegetação que é usada para se esconder e atacar os inimigos de surpresa permaneceu. Enquanto todo o resto foi removido e substituído por uma textura opaca e em baixíssima resolução. A estufa de botânica vista no início do game é apenas uma pequena parte das que existem em outras plataformas. O que impede, por exemplo, de visualizarmos a plantação da Adelaide, diminuindo assim o impacto das ações que devemos tomar mais pra frente.

SONS QUE ACOMPANHAM

A trilha sonora do game comenta de leve as passagens, mas sem se intrometer muito. Está ali para enfatizar momentos de ação ou exploração, mas nenhuma composição é marcante. O ponto positivo na parte de áudio do game sem dúvidas são os efeitos sonoros. Eles ajudam a criar a imersão que o jogo precisa e até mesmo reforçar o quanto viver e trabalhar naquelas situações pode ser estressante. Se ouvir os bordões e jingles das empresas é massante para o jogador, imagine para os inúmeros personagens que sua sobrevivência depende de ouvi-los e repeti-los.

The Outer Worlds é uma excelente e divertida experiência de RPG, porém no Switch peca em entregar o que o jogo possui de melhor. Sem a atmosfera vista nas versões de outros aparelhos, o console falha em criar a imersão necessária para que o jogador mergulhe definitivamente na aventura. Associado a problemas graves de performance e visuais, o jogo da Obsidian se torna quase injogável na plataforma. Requerendo uma dose extra de paciência do jogador para superar mortes injustas e encarar a tela de loading interminável. Dessa forma fica difícil recomendar o game no console como está. Um patch de correção está sendo desenvolvido para ajudar, mas acho difícil que melhore a ponto de contornar todos os problemas. Se corrigirem pelo menos a performance já será um grande passo, mas acredito que não será suficiente.

Seria ótimo que todos os games estivessem disponíveis para se jogar a qualquer momento e lugar. Porém, o preço de ter alguns deles no Nintendo Switch é alto demais e apenas a vantagem da portabilidade acaba não sendo justificativa suficiente. Principalmente quando a visão artística sai tão prejudicada.

Esta análise foi feita em cópia gentilmente cedida pela Private Division.