REVIEW | THE WITCHER 3: WILD HUNT traz um mundo vasto a ser explorado e, dessa vez, em qualquer lugar

Mais que um simples videogame, The Witcher 3: Wild Hunt é uma experiência artística incomparável.

Quando em 2015 a CD Projekt Red lançou The Witcher 3: Wild Hunt, a comoção foi enorme. Toda a campanha de marketing que veio desde a divulgação do game em 2013 foi capaz de criar uma enorme expectativa nos jogadores, e não era pra menos. Os dois primeiros games da franquia se tornaram clássicos cult, o segundo principalmente, e tudo o que se via do novo episódio se mostrava surpreendente.

Com um carinho enorme por seus fãs, que pode ser comprovado na edição básica do jogo que continha um agradecimento especial além de um belíssimo mapa impresso em papel, a desenvolvedora Polonesa se viu sair de um estúdio de médio porte para os holofotes principais da indústria dos games. Rapidamente The Witcher 3 se tornou o RPG favorito dos jogadores, vencedor de inúmeros prêmios, incluindo Jogo do Ano no The Game Awards, um dos maiores reconhecimentos de qualidade que um jogo pode receber.

Na E3 de 2019, em uma das melhores apresentações de toda a feira, a Nintendo revelou que o game estava chegando ao Nintendo Switch. Pela primeira vez teríamos The Witcher 3 em formato portátil, deixando todos surpresos e céticos quanto a performance do game no console da Nintendo, já que o aparelho não possui poder de processamento tão grande quanto os das outras fabricantes. Com o jogo em mãos pudemos ver com nossos próprios olhos o feito técnico impressionante na versão do pequeno notável, assim como foi possível observar o efeito do tempo nas mecânicas do game e suas influências no já clássico Breath of The Wild.

SENTA QUE LÁ VEM  HISTÓRIA

The Witcher 3: Wild Hunt faz jus a toda hipérbole usada para descrevê-lo. Um dos maiores e mais divertidos RPGs para consoles que existe, um dos mundos mais bem elaborados criados para um jogo e, claro, uma das melhores narrativas que os games podem oferecer. Baseado nos romances do Polonês Andrzej Sapkowski, a série de jogos acontece anos depois dos acontecimentos dos livros, em uma espécie de continuação, e o terceiro jogo se distancia ainda mais daquelas narrativas, porém, sem deixá-las de lado. Em busca de uma  feiticeira, que também já foi sua amante, Yeneffer de Vengerberg, Geralt e seu amigo e mestre Vezemir seguem os rastros deixados pela garota. Quando finalmente se encontram, o bruxo descobre que sua antiga pupila, Cirila, que há muito havia viajado para bem longe do Continente, mundo onde as aventuras do jogo se passam, parece ter retornado. A jovem de cabelos brancos está sendo perseguida pela Caçada Selvagem, um grupo de espectros que são considerados os presságios da morte. As motivações pelas quais a fizeram retornar e por quê a caçada estava lhe procurando não são claras inicialmente, mas Geralt, a pedido de Yen, decide entrar nessa busca afim de respostas.

A Caçada Selvagem do título não se refere apenas ao grupo de espectros vistos no game, mas também a própria busca de Geralt por Ciri, que passa por caminhos tortuosos, já que o bruxo parece estar sempre alguns passos atrás dela. Enquanto rastreia sua filha de consideração, ele cruza com inúmeras situações que dependem ou não de sua ação e cabe ao jogador decidir.

ESCOLHAS QUE IMPORTAM

Diálogos são uma mecânica importante, dependendo de como respondeu e reagiu a momentos, mudanças ocorrem no futuro. As escolhas que o jogo permite ao jogador fazer são um dos grandes charmes da narrativa do RPG. Decisões afetam diretamente os acontecimentos e, como na vida real, as consequências dos atos rapidamente podem ser vistas. Ao entrar em um bar, Geralt se depara com alguns soldados que o afrontam. Podemos usar diálogos que revidam o afronte e partir para a briga ou tentar apaziguar as coisas e deixar tudo tranquilo. Caso tenha lutado com os rapazes, entrar na fortaleza do Barão Sanguinário pode ser um pouco mais complicado, mas se tiver até mesmo pago bebidas para os rapazes na estalagem, você poderá cruzar os portões sem muitas dificuldades. Essa mecânica se estende por todo o game e nos deixa curiosos para saber qual será o resultado de ajudar um comerciante na estrada, ou até mesmo quais os males ou benefícios teremos em liberar um espírito que possuiu o coração de uma árvore.

A cada local que o protagonista passa ele coleta alguma pista de onde Ciri está indo e quais as motivações, mas para conseguir tais informações ele precisa ajudar as pessoas que encontra, uma pequena troca de favores. Um contrato de Bruxo para eliminar um Grifo Real serve para descobrir que a jovem seguiu para uma fortaleza, e com isso passamos a controlá-la nessas “histórias paralelas”, o que nos dá uma certa liberdade para moldar um pouco o caráter dela, o que pode levar a uma conclusão diferente da história para cada jogador. Essa narrativa acontece outras vezes ao longo da jornada e serve não só para nos deixar íntimos de Ciri, como nos importar com a jornada de ambos personagens principais da trama.

Entre uma sequência de história e outra, vagamos pelo Continente em buscas de rastros, não só de Ciri mas de monstros e pessoas também. Como todo bom Bruxo, Geralt é um caçador por natureza. Os Bruxos são pessoas que desde criança passam por mutações e treinamento avançado para aguçar os sentidos, se tornarem resistentes a poções e, principalmente, saber como reagir e identificar os elementos a sua volta para resolver enigmas. 

O bestiário dentro do jogo é um primor. Fornece informações básicas como a de usar fogo contra inimigos carniçais devoradores de cadáveres, quanto detalhes curiosos sobre a mitologia do universo criado por Andrej, como a de que os Grifos Reais encontram parceiros que vivem pela vida toda ou que um feto abortado e enterrado de qualquer maneira pode se tornar um perigo e uma maldição. Além de deixar tudo mais crível e interessante, os livros contém dicas preciosas de como eliminar os inimigos, que no caso dos citados Grifos, uma Bomba Colmeia seria bem útil para atordoá-lo, assim como uma isca feita de raiz de Cáscara seria eficaz para atraí-lo. Checar que o sinal mágico Yrden associado com óleo de espectro na espada pode deixar a luta contra as aparições mais simples é mais um de inúmeros exemplos.

Durante todo o game, essa mecânica de identificar o tipo de inimigo, se preparar para enfrentá-lo e partir para a luta utilizando de suas fraquezas é um grande atrativo do jogo. Se nos capítulos anteriores isso aparecia de forma singela, em Wild Hunt ganha protagonismo. As poções e óleos precisam ser fabricados com itens encontrados durante a jogatina, portanto estar de olho nos produtos vendidos por camponeses e donos de loja é importante. Mesmo que não tenha dinheiro suficiente para adquirir uma erva ou raiz para criação de uma bomba, é bom saber onde encontrá-la para evitar andança desnecessária no futuro. Vale ressaltar que essa brincadeira de preparação é mais intensa no modo difícil do game. Em modo normal ou casual, é possível derrotar os inimigos sem muita dificuldade, portanto conseguir explorar o ponto fraco dos rivais não se torna essencial, apesar de poder ser usado para agilizar ainda mais as coisas. 

MUNDO VIVO, PULSANTE E PERIGOSO

O Universo do jogo é uma criação fantástica. Toda a ambientação reflete as histórias contidas nos inúmeros livros e textos que servem para contextualizar quem está chegando agora. A trajetória de personagens, as guerras já travadas e que ainda continuam, tudo é contado com uma riqueza de detalhes que parece estarmos lendo um livro didático de história. No momento em que o jogo se passa, o poderoso império de Nilfgaard já ganhou a maior parte das regiões e cresce cada vez mais. O clima de derrota de Temeria, região recém tomada pelos Nilfgaardianos, exala no ar, o que não impede de alguns moradores mais resistentes de procurar briga com os temidos soldados imperiais. Geralt, sendo um Bruxo, acompanha os acontecimentos de longe, sem se envolver muito, mas o game algumas vezes lhe dá a possibilidade de se posicionar, mas não sem consequências, como já mencionei.

No mundo criado por Andrej, os Bruxos são seres indesejados. Ao contrário da maioria dos jogos, o protagonista não é adorado e sim tratado com desdém e preconceito pelas pessoas ao seu redor. Muitos irão reagir de forma bastante hostil apenas por sua presença, não sendo necessário nem abrir a boca para receber um insulto. Por conta disso, jogar The Witcher 3: Wild Hunt pode ser incômodo em certos momentos, inclusive, dá uma pequena ideia de como é estar na pele de alguma minoria que sofre preconceito 24 horas apenas por ser quem são. 

Mas mesmo não gostando de Bruxos, os habitantes Do Continente se veem constantemente precisando de seus serviços. Morando em um lugar hostil por natureza, que tem a magia não como algo belo e atraente, mas perigoso e ameaçador, os inúmeros NPC recorrem a Geralt para se livrar de alguma maldição. Descobrir porque a esposa foi a floresta e nunca mais voltou ou até mesmo recuperar a única panela de uma senhora são algumas das situações que surgem. Esses contratos servem para melhorar a experiência do personagem, assim como todo Rpg, mas além disso, expandem o universo e são extremamente divertidas de fazer. Sem nunca repetir as solicitações em missões extras, cada uma delas conta uma pequena história que se desdobra em situações bizarras, como o caso de um rapaz que não consegue mais pegar água de um poço por conta de uma aparição noturna. Ao verificar, se descobre uma maldição com um desfecho trágico para uma história de amor que  aconteceu muitos anos antes. 

Como Geralt vive em um mundo distorcido, saber quais as reais intenções dos personagens não é tão simples, já que muitas vezes quem tentamos ajudar pode não estar sendo totalmente sincero em suas motivações. Se deparar com um fantasma de uma mulher que foi devorada viva por ratos pode nos comover a libertá-la de sua maldição, mas como nem tudo é o que parece, deixá-la livre pode não ter sido uma boa ideia no final das contas. Começar a jogar essas pequenas passagens do jogo é viciante e é possível passar horas sem avançar na campanha principal apenas porque quer descobrir mais daquele vasto mundo de cativantes personagens secundários. É a antítese de muitos games do estilo onde missões paralelas servem apenas para encher barras e números, soando como trabalho antes de partir para a parte divertida da trama principal. 

Como The Witcher 3 se passa muitos anos depois dos episódios narrados nos livros e, principalmente, após dois jogos, Geralt tem uma jornada e tanto para trás. Muitas pessoas que encontramos no caminho já conhecem o Mestre Bruxo de outros carnavais, possuindo romances, amizades e até mesmo desavenças para serem resolvidas. Conhecer o que se passou anteriormente não é essencial para se divertir com o terceiro capítulo dos jogos, mas com certeza acrescenta uma camada extra na experiência. A Parte positiva é que a desenvolvedora do game soube que seu novo jogo alcançaria um público maior que os passados e deu um jeitinho de contextualizar os acontecimentos. É possível entrar na jornada sem saber que Geralt passou boa parte do primeiro e segundo game sem memória graças a sua quase morte no final das aventuras literárias, ou que possui forte amizade de muitos anos com Dandelion, pois os episódios são mencionados toda vez que for conveniente trazê-los à tona. Alguns, como a dama que diz que Geralt matou seu filho e ele não a questiona já mostram que existe muito mais por trás daquele personagem do que está aparente, o que nos mantém ainda mais ligados nos acontecimentos, fazendo o elemento mistério se tornar ainda mais importante na narrativa.

O JOGO DENTRO DO JOGO

É impossível mencionar The Witcher 3 sem falar de Gwent, o jogo de cartas preferido das pessoas do mundo do game. Aliás, talvez seja o preferido de Geralt de Rivia, que sempre que pode questiona algum NPC se quer jogar com ele. Gwent nada mais é que um jogo de cartas em tabuleiro, uma versão simplificada de Trading Card Games como Magic The Gathering, mas que possui mecânicas próprias. Conseguir todas as cartas disponíveis é uma das tarefas secundárias do Bruxo, mas que pode ser ignorada totalmente caso o jogador deseje. Muitos gamers passavam horas montando seus baralhos e estratégias que até esqueciam das missões principais de The Witcher, a ponto da CD Projekt Red enxergar uma nova possibilidade de expandir o universo do game criando Spin Offs utilizando somente o jogo de cartas. Podem não ter alcançado o público que queriam e nem terem sido um sucesso de venda com o jogo principal da série, mas Gwent: The Witcher Card Game e Thronebreaker: The Witcher Tales agradaram quem jogou e têm seu público fiel até hoje.

COMBATER O SISTEMA DE COMBATE

Para explorar o gigantesco mapa de The Witcher 3 é preciso se aventurar pela jogabilidade, que para alguns pode ser a verdadeira batalha no jogo. Controlar Geralt já foi pior na época de lançamento, mas mesmo com patchs de correção, a movimentação do personagem ainda é estranha. Cavalgar com o Carpeado não é tão agradável, mesmo utilizando o sistema onde se controla apenas o galopar do animal, deixando a movimentação no automático. Dessa maneira, várias vezes ele desvia do caminho marcado no mapa, principalmente se houver alguma bifurcação na estrada ou alguma árvore na frente.

O combate é impreciso e é quase unanimidade que se apresenta como um dos pontos mais fracos do game. Se preparar para eles é essencial, saber quais óleos passar na lâmina da espada, qual poção tomar ou até mesmo engatilhar uma bomba nos menus torna a batalha mais dinâmica e a busca pelos itens de criação uma diversão à parte. Porém, morrer para um Liche no final da luta apenas porque o personagem não desviou da forma que deveria, ou até mesmo a câmera ou o botão de travar a mira saem do controle, é extremamente frustrante. O personagem se movimenta solto demais durante o combate e a programação não é tão fluida e precisa como o esperado, e resulta em muitos momentos estressantes.

A programação geral do jogo poderia ser um tanto melhor também. Bugs, travamentos, personagens flutuantes, chão que desaparece, tudo isso pode aparecer durante as partidas. No meu gameplay, em certo momento foi preciso reiniciar o game para corrigir um problema nos tutoriais, que simplesmente não pulava para a próxima lição, impedindo que eu avançasse no jogo. Vale ressaltar que não são defeitos vistos apenas na versão de Nintendo Switch. Nos outros consoles e também no PC existem inúmeros relatos de bugs durante o game, porém, a maioria é possível relevar, pois o game possui um mundo aberto gigantesco e vários elementos para lidar ao mesmo tempo e esse tipo de situação é comum.

Um grande defeito do jogo reside na forma que lida com missões concluídas. São inúmeras as vezes que ouvimos o barulho de missão realizada no meio de um diálogo mas nenhuma mensagem, que vai aparecer depois e, na maioria das vezes, por alguns segundos, fazendo com que não tenha uma forma nítida e definida, tornando a transição entre cutscene e gameplay confusa e deselegante. 

PODERES CÓSMICOS E FENOMENAIS, DENTRO DE UMA TELINHA

A versão de Nintendo Switch chegou surpreendendo a todos. Assim como Resident Evil 2 portado para o Nintendo 64 foi um feito técnico em sua época, The Witcher 3: Wild Hunt repete a façanha de colocar um game visto como impossível de ser disponibilizado numa plataforma da Nintendo, rodando sem muitas dificuldades. Sacrifícios visuais precisaram ser feitos e essa é a versão mais simples em gráficos disponível atualmente, porém não deixa de fazer bonito. Na TV, a imagem mais embaçada graças a resolução menor pode incomodar no início, mas rapidamente o cérebro se acostuma e tudo se normaliza. É perceptível que fizeram um esforço gigantesco para que a perda de experiência fosse mínima, e conseguiram. O game continua todo lá em conteúdo e diversão, sem problemas graves de framerate aparente e nenhum detalhe removido ou fora do lugar. Em comparação com versões de PS4 e Xbox ONE, que mesmo em consoles de base oferecem uma imagem mais nítida e detalhada, a versão de Switch é totalmente satisfatória devida a natureza do aparelho, que pode ser usado de forma portátil, e é nesse modo que o game brilha. 

Como a tela do console possui resolução nativa e tamanho menores que a maioria das TVs, os gráficos parecem que se encaixam melhor. Efeitos, texturas e visuais continuam idênticos independente se está ligado na TV ou pela telinha do aparelho, mas a contagem de pixel favorece os que pretendem passar mais tempo com o Switch nas mãos. E no final das contas, as versões desses jogos AAA para o Switch servem ao propósito de possibilitar jogá-los em qualquer lugar. DOOM, Wolfenstein 2, The Witcher 3 e mais alguns possuem edições mais bonitas e muitas vezes mais baratas em outros dispositivos, mas qual permitirá você a completar duas ou três missões no intervalo do trabalho ou na espera do dentista? Muitas pessoas estão escolhendo jogar no híbrido da Nintendo, mesmo com redução gráfica, justamente pela proposta de acesso a esses games em qualquer lugar.

Outra grata surpresa para quem vai jogar no pequeno notável da Nintendo são os tempos de loading. Nos consoles maiores o game tende a demorar um pouco para carregar ao iniciar pela primeira vez ou até mesmo trocar de área do mapa, e no Switch isso também acontece. A vantagem aqui é que mesmo com esses loadings de área sendo poucos segundos maiores, a navegação nos menus tende a ser mais rápida e suave. No Xbox ONE, versão que joguei originalmente, o game levava alguns momentos a mais para carregar o mapa e os itens de inventário. Algumas pequenas travadas entre os menus também eram perceptíveis e mesmo com patchs de correção que amenizaram, esses engasgos ainda existiam. Já no Nintendo Switch a navegação é fluida e sem problemas, o que torna a experiência um pouco mais agradável e suave, assim como viajar entre áreas próximas, que tende a ter um carregamento bem ligeiro.

O port de The Witcher 3 para o Nintendo Switch não traz nada de novo ao game. Nenhum comando de movimento nem opções para tela de toque e muito menos faz uso do HD Rumble dos joy-cons. É toda a experiência do jogo nas outras plataformas, sem tirar nem por. O que é ao mesmo tempo ruim, pois não faz uso de recursos únicos do console que poderiam agregar a jogabilidade, mas também é bom por que não deixa que usuários de outros aparelhos se sintam prejudicados por não poderem experimentar alguma modificação exclusiva. Mas confesso que seria divertido navegar pelos menus e mapas do jogo através da tela de toque, o que tornaria tudo bem mais intuitivo. 

The Witcher 3 chegou a todas as plataformas que foi lançado originalmente com legendas e áudio no nosso idioma e não foi diferente no Nintendo Switch. Os diálogos são todos dublados, inclusive pequenos comentários dos NPCs ao redor. A versão brasileira possui alguns erros de mixagem em todas as plataformas. Em alguns momentos um áudio sai mais alto ou baixo do que deveria, ou um mesmo personagem possui tons diferentes de voz ao executarem suas falas. Isso sem falar nas vezes que uma mesma sentença é dita por duas vozes diferentes, mas nada disso atrapalha, apenas tira um pouco a imersão. Como The Witcher 3 depende demais de narrativa e história, o jogo teve muitas e muitas horas de diálogos dublados e por isso jogar no nosso idioma facilita o entendimento para aqueles que não são fluentes em alguma outra língua disponível no pacote. Mesmo que não seja tudo impecável na tradução, mirar, batalhar, desviar de ataques e cavalgar, tudo ao mesmo tempo é mais agradável quando não é preciso ficar lendo as legendas no inferior da tela.

As legendas seguem impecáveis e no Switch ficaram um pouco maiores. Para que tudo fique legível na telinha do modo portátil do console. A Saber Interactive, responsável pelo port, fez o máximo que pode para aumentar as letras sem prejudicar a visão de ambiente do jogador. Os elementos do HUD também ficaram um pouco maiores e facilitam bastante a vida dos que precisam de alguma lente corretiva para enxergar melhor. Não é perfeito e ideal, mas já ajuda.

The Witcher 3: Wild Hunt no Nintendo Switch carrega todo o conteúdo e correções já lançados, tudo no mesmo pacote e dentro do cartucho, sem necessidade de download extra, como acontece com alguns games mais pesados de outras empresas. E aqui o destaque fica nas duas expansões do jogo, Heart of Stone e Blood & Wine, que foram aclamadas na época de lançamento e que estão disponíveis desde o início do game sem custo adicional. A versão física ainda conta com um mapa do mundo do jogo, adesivos e um belo compêndio, a tornando a melhor forma de ter o game, já que a cópia digital não possui esses mimos e ainda ocupa 35gb de armazenamento, obrigando o uso de um cartão micro SD mais parrudo.

MÚSICAS ÉPICAS PARA UM GRANDE ÉPICO

Jogar The Witcher é uma experiência incrível como já percebemos, e para coroar toda a aventura de Geralt é de se esperar que a trilha sonora faça jus ao clima épico criado pela CD Projekt Red. Músicas complementam os ambientes de forma eficiente, e independente de onde seu personagem se encontra, existe uma canção tocando de fundo para acompanhar e geralmente uma composição bastante inspirada. Mas é quando a ação acontece que as obras-primas musicais surgem. Desde as batalhas mais simples até os embates com chefes poderosos, as músicas causam um impacto impressionante, a ponto de querer ouvi-las mesmo quando não se está jogando. Um grande exemplo é no momento de revelação das Moiras do Pântano, que a trilha tocada é tão emblemática quanto as figuras que são apresentadas, ressaltando o momento épico vivido pelo personagem. Belíssima até para quem não jogou o game, a trilha sonora de The Witcher 3: Wild Hunt está disponível nas principais plataformas de streaming e contém o melhor da música clássica misturada com instrumentos celtas, corais e cantos medievais da região europeia.

THE WITCHER 3 PÓS ZELDA BREATH OF THE WILD

A versão de The Witcher 3: Wild Hunt para Nintendo Switch é um feito técnico impressionante como já vimos, mas qual o impacto dela no mundo atual? Pouco mais de quatro anos se passaram desde o lançamento original do game e muita coisa aconteceu de lá para cá. Se o game da CD Projekt Red chegou numa época onde Dragon Age Inquisition da Bioware ditava as regras de RPGs ocidentais carregados de narrativa e exploração de ambientes abertos, e The Elder Scrolls V: Skyrim era o mestre das narrativas emergentes, o port para o híbrido da Nintendo aparece pouco depois do surgimento de uma revolução chamada The Legend of Zelda – Breath of The Wild.

Wild Hunt não faz feio e se mantém atrativo mesmo depois de experimentarmos uma liberdade maior em Zelda. Como depende mais da história que está sendo contada para cativar do que o jogo da Nintendo, The Witcher 3 apresenta uma progressão um pouco mais linear e tradicional, mas nem tanto. O mapa, ao contrário de Hyrule, aumenta a cada investida na história feita pelo jogador e não está totalmente disponível no início, mas que faz todo sentido para o que o game precisa, já que está lidando com narrativas mais intensas e complexas. A exploração chega a ser bastante semelhante mas respeita as limitações do personagem. Como não é possível escalar montanhas por exemplo, elas possuem caminhos específicos para serem desbravadas e acabam não sendo paredes que atrapalham o avanço como visto em Horizon: Zero Dawn da Guerrilla.

As missões secundárias aparecem ao longo da jornada e muitas são coletadas em quadros de avisos pelas cidades e marcadas no mapa. Ao longo da viagem, alguns NPCs pedem ajuda de Geralt e é muito fácil se perder entre um caminho e outro, assim como na jornada de Link, porém, um fio que liga o protagonista até a missão marcada no mapa do canto da tela faz com que se perder ou se distrair com coisas secundárias seja uma opção do jogador. No caso do jogo do bruxeiro é extremamente válido, já que conta com a narrativa para manter o interesse do jogador, enquanto que Zelda depende que o jogador se surpreenda a cada passo dado para que seu senso de curiosidade e exploração continue o mantendo ligado.

Por mais que carreguem grandes semelhanças, The Witcher 3:Wild Hunt e The Legend of Zelda – Breath of The Wild utilizam diferentes recursos para cativar quem está jogando ou assistindo e por conta disso, funcionam como lados diferentes da mesma moeda e conseguem coexistir numa boa. Vale ressaltar que o Nintendo Switch é o único lugar onde podemos ter esses dois grandes jogos na mesma plataforma de forma oficial.

A CD Projekt Red criou uma obra-prima sem sombra de dúvidas e faz isso sem ser tecnicamente impecável. Tecnologia, engines e programação sozinhos não fazem um jogo se tornar excelente, mas o quanto esse toca nos corações das pessoas. Talvez o carinho e dedicação do time de desenvolvimento tenha transpassado para quem está curtindo o jogo, ou talvez todo esse cuidado foi o responsável para que a emoção estivesse nos lugares certos. Independente do que causou a comoção nas pessoas, ela está lá. Desde os primeiros momentos é perceptível que estamos presenciando uma obra diferente, que tem uma maneira única de apresentar sua narrativa e instiga a curiosidade e o desejo de avançar. Conseguimos passar por cima dos comandos desajeitados e das animações truncadas, pois aquele universo nos pegou.

Conhecer o destino dos familiares do Barão Sanguinário, saber qual o próximo caminho seguido por Cirila, livrar uma cidade da ameaça de um Vampiro, ou até mesmo tomar partido na disputa de regiões, ou não, é o que faz The Witcher 3: Wild Hunt tão especial e diferente de muita coisa que existe por aí. A sua mecânica que combina exploração com investigação é um charme à parte e mexe com o imaginário de quem joga. Descobrir os hábitos de vida de seres fantásticos que habitam aquele universo é divertido graças ao maravilhoso trabalho dos desenvolvedores do game, que conseguiram pensar em cada detalhe visto em tela. Claro que a mitologia é baseada em muitas outras e o game tem os livros como ferramenta, mas as lacunas que precisaram ser preenchidas são enormes e saber onde e como dispor tudo de forma que fique interessante e de fácil acesso é um trabalho que requer muita sabedoria e domínio da arte que se está propondo fazer.

Mais que um simples videogame, The Witcher 3: Wild Hunt é uma experiência artística incomparável. Mesmo alguns anos depois de seu lançamento original, continua um grande jogo e provavelmente continuará por muito tempo, o tornando assim um jovem clássico que temos a oportunidade de presenciar seu grande momento, e agora em qualquer lugar.

Esta análise foi feita com código gentilmente cedido pela CD Projekt Red.

Revisão: Angelo Mota