REVIEW | WEST OF DEAD possui mecânicas divertidas em um jogo pouco cativante

Publicado pela Raw Fury, West of Dead é um jogo independente muito bem feito e com um estilo visual único e bonito.

Quando a voz de Ron Perlman surge em West of Dead, somada ao visual repleto de sombras e violência, percebemos na hora que Hellboy parece ter sido a maior inspiração da desenvolvedora Upstream Arcade. O ator mencionado interpretou o personagem no cinema e da voz ao protagonista desse jogo independente no estilo roguelike, com mecânicas de tiroteio e visão isométrica. A ambientação no velho-oeste e todo o clima obscuro que fala sobre morte, inferno e purgatório complementam o estilo visual que é bem competente e possui uma arte bastante original e criativa. Mas será que todo o cuidado e carinho artístico foram suficiente para tornar West of Dead um bom jogo?


O FANTASMA DESMEMORIADO

Ao iniciar o game você se encontra na pele (ou esqueleto) de William Mason, um cowboy sem memória que lembra bastante o Motoqueiro Fantasma, com seu rosto de caveira, e chamas ao redor de sua cabeça. Em busca de descobrir o que aconteceu, precisa avançar por labirintos cheios de ameaças e que parecem ser uma espécie de purgatório para o personagem.

Quanto mais se avança no game, mais a história do personagem se revela, o que deixa a aventura mais interessante e instigante para o jogador, e se torna um dos motivos para querer conhecer mais daquele ser estranho que passou a controlar. Porém, com o desenrolar percebemos que não existe nada muito diferente dos clichês do gênero que existem por aí e a mecânica do jogo passa a ser sua principal motivação.


ESCONDE, ATIRA, CORRE, COMO TODO BOM SHOOTER DEVE SER

Com visão isométrica bem parecida com a de Diablo, West of Dead tem em sua principal mecânica tiroteio e cobertura. Ao encontrar um grupo de inimigos é preciso saber se posicionar para atacar e defender. Alternar entre tiros, cobertura e desvios na hora certa é essencial para se manter vivo no labirinto gerado de forma procedural. Sim, como um bom roguelike, o game não possui o mesmo mapa e inimigos posicionados no mesmo lugar, fazendo com que em cada partida tudo esteja bem diferente.

Cada vez que o personagem morre retornamos ao ponto inicial, onde encontramos um dono de Saloon nos fornecendo algumas informações. Entramos de novo no labirinto e lidamos com os inimigos e situações da maneira que foram geradas nessa jogada, tentando encontrar o ponto final daquele capítulo para assim avançar para o próximo. Durante o caminho recebemos ajuda de vendedores de armas e bruxas que fornecem itens e melhorias, algumas delas permanecem, mesmo com a morte do jogador, e outras precisam ser coletadas novamente.

Com a onda dos roguelikes, vários jogos tentam replicar essa sensação de novidade a cada partida, e se concentram em criar boas mecânicas para justificar o tempo investido do jogador. Mas para funcionar, a mecânica principal precisa ser bastante atraente e divertida, para que a gente se sinta motivado a continuar jogando até eventualmente esbarrar no final do jogo.

West of Dead possui sim um gameplay interessante, mas que funcionaria melhor em um jogo com level design fixo e bem elaborado. O sistema de coberturas e os tiros que dependem de tempo de resposta e “cooldown” é muito bem feito, mas repetitivo e depende de melhorias para criar variações no combate, e que não são tantas assim. Muitas vezes é escolher qual a combinação funciona melhor para você e utilizá-la até o fim. Um tiro de espingarda, outro de pistola para atordoar o inimigo e finalizá-lo com uma faca é uma das maneiras que as armas podem ser combinadas, e a maioria dos inimigos aceitam essa forma de usar. Os chefes por sua vez criam um desafio diferente, mas que não exigem muito mais do que desviar e atirar várias vezes, já que funcionam como esponja de balas.

Se o game seguisse uma linha mais tradicional de fases e checkpoints, poderiam criar situações que exigissem manobras específicas ou o domínio de alguma mecânica, já que fizeram um sistema bem interessante. De forma procedural as coisas soam mais genéricas e simples do que deveriam.

Quando se adquire novas habilidades, enfrentar as partes iniciais novamente se torna mais rápido e fácil, mas ter de rever todos os inimigos e ambientes iniciais a cada vez que morre para chegar a um chefe é frustrante. Eu não consigo me adaptar a esse tipo de jogo por parecer que não estou conseguindo progredir e tenho certeza que gostaria mais de um checkpoint antes de enfrentar inimigos mais poderosos.


UM POUCO DE AJUDA, POR FAVOR

Ao longo do caminho você encontra alguma ajuda. Elas vêm de personagens típicos do velho oeste, como o vendedor ambulante e o dono do bar, mas algumas vêm de santuários espalhados pelo labirinto e até mesmo de uma bruxa que concede melhorias a troco de Pecados.

Uma pena que o texto desses personagens se resumem a falar do que estão vendendo ou até mesmo passar informações vagas e desencontradas. Muitas vezes o dono do Saloon parecia querer me contar algo novo dizendo “tenho algo para lhe falar”, e quando conversei ele apenas repetiu uma frase que já havia mencionado antes. Quando a Bruxa parecia querer dizer algo chamando para conversar, era apenas pedindo os Pecados como sempre faz. Essas situações causam a impressão que algo está incompleto ou faltando naquele diálogo, que está apenas solto, tirando parte da imersão necessária.

A narração em primeira pessoa do personagem sempre solta frases de efeito e clichês do gênero, mas poucas têm contexto com o que está acontecendo na tela, podendo ser usadas a qualquer momento do jogo, devida a natureza procedural.

Isso acontece também com descrições de itens e lugares. A melhor forma de saber como uma arma funciona é utilizando em combate, já que algumas descrições são vagas. O que não chega a ser um problema já que parte da graça do game é experimentar e testar. Esse texto ruim só atrapalha mesmo quando chegamos a certos lugares e apenas diz que “é preciso ter algo para usar isto” sem informar exatamente o que é algo e isto.


BUGS E ROGUELIKES NÃO COMBINAM

Para que um game procedural funcione é preciso também poli-lo a ponto de evitar problemas causados pela engine do jogo que frustrem o jogador. West of Dead é repleto de bugs que não só nos impedem de avançar como causam a morte do protagonista. É extremamente frustrante estar no capítulo 3 e ter de voltar para o primeiro porque o sistema de colisão fez com que o personagem ficasse preso a uma cobertura ou até mesmo travar em uma porta e cair no vazio até a morte. Foram várias as vezes que enfrentei problemas e fica a sensação que o game não está sendo totalmente justo. Esses detalhes são corrigíveis com patchs e esperamos que a desenvolvedora continue trabalhando para ajustá-los.


BOA TRILHA E BOM USO DELA É SEMPRE BEM VINDO

Nos filmes de Clint Eastwood, a trilha sonora era usada para criar o clima da obra. Os clássicos dirigidos por Sergio Leone estabeleceram um gênero, e as músicas compostas por Ennio Morricone ditaram as regras das trilhas do velho oeste. West of Dead claramente busca inspiração nos grandes nomes, mas tentando modernizá-las e contextualizar para o propósito do game com estilo mais cartunesco. A música que toca durante os combates é agradável e fornece o ritmo necessário para embalar o tiroteio. Uma pena que toca somente por alguns momentos em que inimigos estão presentes na tela. Seria interessante ouvi-la enquanto exploramos os labirintos. Porém da forma que está, pode servir como elemento de acessibilidade, já que a trilha é disparada na presença de ameaça e ao derrotar todos os inimigos um som específico é executado e a música silenciada, indicando que o jogador está em um ambiente seguro.

Publicado pela Raw Fury, West of Dead é um jogo independente muito bem feito e com um estilo visual único e bonito. Com forte inspiração nos quadrinhos e filmes de Hellboy, passando por Motoqueiro Fantasma e até mesmo os clássicos de Sergio Leone, o game se esforça para criar uma mecânica atraente e divertida. Uma pena que por querer entrar na onda atual dos jogos Roguelike, com mapas e inimigos gerados proceduralmente, algo que poderia ser incrível acaba se tornando apenas mediano, já que a mecânica não justifica o estilo, e o texto desencontrado não incentiva o jogador a buscar mais sobre aquele universo. Para quem é fã de Roguelikes, o jogo oferece uma experiência bacana. Mas quem não curte dificilmente será na jornada de William Mason que mudará sua opinião.


Esta análise foi feita com cópia gentilmente cedida pela Raw Fury através da Agência Masamune.


Revisão: Angelo Mota