REVIEW | XENOBLADE CHRONICLES DEFINITIVE EDITION é… literalmente… definitivo

A versão definitiva traz um grupo de alterações nas funcionalidades do título. A própria performance do software já ajuda a diminuir as dezenas de horas de XC.

A fortuita chegada de Xenoblade Chronicles Definitive Edition adiciona mais um capítulo à história da franquia, bem como outro ato na saga de encontrar e jogar o título de forma oficial. Tal saga iniciou-se a partir dos esforços pedindo a localização do jogo para o ocidente, e teve seu mais difícil capítulo nas peregrinações dos fãs atrás de 1 (uma) cópia disponível em preço inferior ao de um órgão. A coisa foi facilitada quando XC chegou virtualmente ao Wii U. E agora podendo ser experimentado por uma base maior de jogadores com a Definitive Edition no Nintendo Switch.

Além de melhorias em certas funcionalidades do jogo, a edição definitiva traz um epílogo exclusivo da versão, Future Connected, o qual tratarei em um texto específico.

Xenoblade Chronicles é um dos meus títulos preferidos dos últimos anos, não que isso represente algum selo ou chancela válidas, mas, para além das minhas predileções, é bastante sóbrio apontar o título como um dos grandes JRPGs de sua geração e década.

Existem, portanto, aspectos marcantes no game. O principal deles é a construção de seus ambientes e a exploração permitida ao jogador. Xenoblade Chronicles traz cenários grandes, alguns mais abertos e outros mais focados em uma rota, aproximando-se de estruturas de dungeon mais propriamente ditas. Os dois tipos de cenários se estendem pelo jogo a partir de dezenas de locais diferentes, em uma variação bacana. Ou seja, raramente após um espaço muito grande iremos precisar passar por outro da mesma estirpe.

Essa alternância ajuda a não sobrecarregar o ímpeto do explorador virtual. De qualquer forma, tais ambientes são o destaque do jogo não apenas por serem grandes, mas principalmente pela forma como essa exploração é proposta. Em XC é possível correr, pular e nadar. Naturalmente não é a caixa de ferramentas e verbos do Mario em Odyssey, por exemplo, mas é o suficiente para a experiência proposta aqui.

Os cenários são vastos, claro, mas possuem também proposta vertical. Ou seja, não apenas exploramos um plano, como é possível acessar lugares no alto ou abaixo. Além disso, morrer em batalha ou após um pulo mais ousado faz você voltar ao último checkpoint sem qualquer penalidade maior. A coisa geralmente é rápida. Mas o principal fator de exploração em Xenoblade Chronicles se dá nas mecânicas específicas de cada lugar, não dos personagens em si.

Em um espaço é necessário se teleportar de ilha flutuante em ilha flutuante (ou nadar lá embaixo se quiser), em outro é necessário escalar a estrutura de uma estátua. Há onde precisamos ligar elevadores, e outros lugares com caminhos altos para nos proteger de inimigos muito mais fortes. Meu exemplo favorito do jogo dá-se em uma área de gelo.

Nela é possível usar gêiseres para subir com o jato d’água (algo repetido em outro cenário, porém em outro contexto), e principalmente usar o gelo para ganhar velocidade e conseguir saltar para um outro ponto. Isso rola de mãos dadas, inclusive, com um dos sistemas de melhoria dos personagens. Em XC podemos equipar nossas armas e roupas com gemas. Tais gemas geram efeitos específicos, a maioria deles voltado para batalha apenas, porém existem alguns também relevantes à exploração.

Nesse exemplo, ao equipar uma gema geradora de bônus na velocidade de andar conseguimos acessar um desses locais. É coisa fina. Acontece menos no jogo do que minha empolgação sugere, mas cada lugar tem sim suas particularidades mecânicas enquanto compõe cenários com temas diferentes (mar, caverna, gelo, floresta, etc).

O outro ponto de destaque de Xenoblade Chronicles é seu combate. Assim como o tipo de cenário e missões propostas, esse é outro aspecto geralmente relembrado quando há a aproximação de XC e outros JRPGs offline com MMOs. Do ponto de vista das ações dos personagens e do sistema de combate tudo aqui é sim bastante análogo a um jogo massivo online.

O confronto traz preocupações como rotação das habilidades (elas têm efeitos diferentes dependendo da ordem de utilização), cooldown, posição do guerreiro em relação ao inimigo (habilidades podem dar mais dano se estamos atrás ou ao lado, por exemplo). O ataque básico também é automático, e há a possibilidade de construir personagens com funções diferentes (o Reyn pode ser um tanque, por exemplo, enquanto outros focam em dano ou cura).

Cada personagem possui diferentes habilidades. Nesse sentido, mesmo com a longa campanha é possível não haver tanta repetição ao alternar entre eles. Com a Sharla iremos curar e cuidar de buffs, com o Riki é possível aplicar debuffs nos inimigos, Shulk e Dunban podem focar no ataque, e o Reyn, como já apontado, possui habilidades voltadas para a função de tanque. A Melia, por exemplo, possui uma outra lógica de utilização de suas habilidades.

O combate, sendo assim, é bastante agradável e conta com uma pluralidade bacana. O lado fraco da comparação com MMOs se dá nos inimigos, não em nossos personagens controláveis. Xenoblade Chronicles não traz mecânicas diferentes para os inimigos ou mesmo chefes, à exceção de poucas variações que se repetem.

Não há resposta ao chefe, e sim muito mais uma preocupação em manejar o guerreiro e utilizar os sistemas de ataque conjunto, ajuda entre os personagens e a habilidade de ver o futuro que Shulk adquire durante o jogo.

Esse ponto, aliás, converge a batalha com a trama do jogo. Xenoblade Chronicles conta a história de Shulk e companhia. Eles vivem sobre o corpo morto de um titã chamado Bionis, falecido em batalha contra outro ser colossal, Mechonis (todos aqueles cenários mencionados estão em algum lugar dos corpos). Ao começo do jogo vemos os homs (humanos) se defendendo dos ataques das máquinas vindas do titã oposto. A única arma capaz de fazer a diferença contra os mechas é a espada Monado.

Tal equipamento é envolto em mistérios desvelados ao longo da jornada, e logo no começo ela chega às mãos de Shulk. Além de ser forte contra os inimigos mecânicos, a espada dá certos poderes ao rapaz, como criar escudos e até mesmo ver um pedaço do futuro. Isso acontece em cutscenes, claro, mas também durante as batalhas, fazendo a equipe poder se preparar contra algum ataque fatal. Essa mecânica de batalha tem um payoff bem bacana nos atos finais do jogo.

A forma de contar a trama é bem direta. Aqui temos as cenas de corte, além de diálogos com NPCs e interações entre personagens através do sistema de heart-to-heart. Conforme os membros da equipe vão entrando em sintonia é possível ativar momentos específicos em certos locais. Nessa hora assumimos a perspectiva de um dos dois, realizando duas escolhas de diálogo que vão afetar na afinidade entre eles.

Esse sistema possui interconectividade com outros; como por exemplo o da criação de gemas e do link entre habilidades passivas. No primeiro caso, conforme mais amigos são, a dupla de aventureiros pode criar gemas melhores. No segundo, cada nível de elo propicia a chance de importar uma habilidade passiva do amigo e vice-versa, entre todos os membros.

Dessa forma, Xenoblade Chronicles conecta seus diferentes sistemas entre si e com as atividades de exploração, combate e “contação” de história. As missões paralelas também entram nesse bolo; geram experiência, dinheiro, gemas e equipamentos, além de serem importantes para maximizar a afinidade entre os personagens. Do ponto de vista prático, elas são úteis e no geral existem muitas possíveis de realizar na própria rota da missão principal.

Do ponto de vista narrativo a situação é mais complicada. Infelizmente são raros os momentos de bom aproveitamento. Os diálogos não são lá interessantes, e poucas vezes essas missões revelam algo do mundo, cidades e seus habitantes. Existem, claro, as exceções. Eu mesmo gosto de 4 ou 5 dessas missões paralelas. Número muito bom fosse o total de quests algo em torno de 20 ou 30. É muito mais.

A trama principal, em contrapartida, é interessante não apenas pela ambientação, mas também pelo processo de desvelamento daquela realidade. Isso se dá, geralmente, a partir de novas revelações e plot twists. Os personagens, em geral, são carismáticos, e cabe aqui uma correlação com Xenoblade Chronicles 2.

Digo isso pois eu mesmo tenho um problema com o segundo (terceiro) título da série. Me incomoda o design dos personagens e, principalmente, a breguice dos diálogos, embora em termos gerais eu considere o argumento do XC 2 superior ao do primeiro. De qualquer forma, não é como se o primeiro fosse o oposto do segundo. Existe breguice, existe falação exagerada nos combates, existem designs esteticamente duvidosos, mas é tudo um tanto mais contido.

O jogo traz algumas reflexões sobre confrontos e o papel dos dois lados da coisa, mas principalmente trata da forma pela qual o poder é exercido. A motivação dos personagens, entretanto, vai mais pelo caminho primeiro da vingança, depois da sobrevivência e por fim de se posicionar em relação ao uso do poder. Novamente, algo comum a jogos do gênero.

A versão definitiva traz um grupo de alterações nas funcionalidades do título. A própria performance do software já ajuda a diminuir as dezenas de horas de XC. Fazendo menos atividades paralelas, levei 25 horas a mais no original de Wii para chegar ao fim da jornada. Isso vem um tiquinho do meu conhecimento prévio sobre o jogo, claro, mas eu dou crédito de forma mais ampla à performance e essas mudanças de qualidade de vida.

Nessa versão é possível mudar a dificuldade a qualquer momento, bem como manejar a experiência dos personagens através do Expert Mode. Esse manuseamento possibilita diminuir o nível do grupo, caso o jogador deseje um desafio maior em algum chefe durante a campanha, e até mesmo gera a capacidade de fazer certos macetes para evoluir mais rápido no fim do game.

A maior mudança é a transposição do jogo original de Wii para os visuais do XC 2, original do próprio Switch. Tal mudança naturalmente realça os cenários de 2010, assim como retrabalha os modelos dos personagens e inimigos. Não trata-se de um remake propriamente dito, mas de uma edição com alteração visual e novas funcionalidades além, é claro, do epílogo exclusivo.

Xenoblade Chronicles continua sendo um dos grandes de seu gênero, e essa versão definitiva chega como um ponto de acesso para uma base maior de usuários. Vale pela trama e ambientação, bem como pelo combate e as formas como interconecta seus sistemas. Seus cenários e a exploração propiciada por eles aparecem como o grande destaque do título.

Essa análise foi feita com cópia gentilmente cedida pela Nintendo.

Revisão: Angelo Mota